A TV Brasileira fecha o ano com um triste espetáculo. Por Alexis Parrot

Logotipos da Record, Globo e SBT. Foto: Divulgação

Publicado originalmente no DomTotal

POR ALEXIS PARROT, crítico de televisão, jornalista e roteirista

A TV brasileira está tão pobre quanto a maioria do povo. Não me lembro de ter visto uma programação especial de festas tão minguada quanto a que está sendo servida pelas emissoras neste fim de ano.

Mas se pensarmos que o presidente está sendo acusado pela ONU de violar o tratado internacional contra a tortura; que vários membros do governo e da família Bolsonaro vêm nos ameaçando com uma reedição do AI-5; que o escolhido para estar à frente da Fundação Palmares afirma que o racismo no Brasil é “nutella” se comparado ao dos EUA; que o desemprego apenas aumenta e que o ano termina com o preço da carne nas alturas, realmente, pouco há para se comemorar.

Se for mesmo para desfiar este rosário, não saímos daqui hoje… Para ficar apenas no campo da televisão, o ano termina com notícia das mais estarrecedoras. A não renovação unilateral do contrato do MEC com a TV Escola, além de provar mais uma vez a incompetência e irresponsabilidade irrestrita de Weintraub à frente do ministério, significa condenar à morte o canal.

Em publicação no Facebook datada de três dias atrás, Gabriel Priolli, homem de televisão que respeito muito e militante histórico da causa da TV pública no país, levantou a voz para denunciar o absurdo. O post (do qual reproduzo aqui um excerto), mais que oportuno, coloca em perspectiva o significado da arbitrariedade e deixa clara a gravidade da decisão:

“A TV Escola é um patrimônio da educação brasileira e cumpre um papel extremamente relevante, sobretudo nas comunidades distantes e carentes de informação, onde chega pelas tradicionais antenas parabólicas… Uma coisa é a TV Escola ser obrigada a veicular o lixo cultural de Olavo de Carvalho. Isso tem conserto adiante. Outra muito distinta é extinguir a emissora. E com ela, a Roquette Pinto.”

A Fundação Roquette Pinto, em seus quase cem anos de existência, tem sido fundamental para o crescimento da televisão nacional, com esforços concentrados em programação educativa, iniciativas de ensino à distância e formação de professores e serviços pioneiros com vistas à acessibilidade. Jogar fora toda esta experiência da noite para o dia sem nenhuma discussão com a sociedade, ignorando o legado da instituição, é mais um crime de lesa-pátria cometido pelo governo Bolsonaro.

Na EBC, a confusão é pior ainda. A TV Brasil, cuja fusão com a NBR (canal de notícias do Poder Executivo) a retira definitivamente da seara do público para jogá-la na vala da propaganda estatal, segue mais chapa branca impossível. Sem falar da exibição de programas como Faróis do Brasil e o inacreditável infantil Amigos do pelotão. São verdadeiras elegias à vida militar e uma tendência de programação que só deve se intensificar no canal. Sobre especiais de final de ano, nem uma palavra – o Natal deve ter sido proibido no quartel.

Até mesmo a TV Cultura, apesar dos muito acertos de conteúdo presentes na trajetória de mais de 60 anos, errou feio este ano e também decidiu pular os festejos natalinos. Além de um programa sobre Clarice Lispector, exibido no dia em que a autora completaria o centenário, nada mais está programado. Se há algo previsto de novidade entre o Natal e o ano-novo, esqueceram de nos contar.

Se o campo da TV pública está de luto, as emissoras comerciais decidiram acompanhar o féretro. Passando por séria crise financeira e demitindo equipes dia sim, dia não, nem Band, nem Rede TV! se movimentaram para preparar alguma coisa que nos alentasse um pouco o espírito. Ambas ficaram só nas clássicas vinhetas com apresentadores, veiculadas nos intervalos de programação. Se a primeira realizou uma campanha estranha (profissionais da casa como Datena e Ana Paula Padrão falando sobre perdas ocorridas durante o ano, tentando espremer alguma esperança que os faça sobreviver em 2020), a segunda não decepcionou.

A breguice, que é uma de suas marcas registradas, acabou se transformando em tsunami e o resultado é ridículo: os donos do canal, com os dentes mais artificialmente embranquecidos já vistos em nossa TV, cantando e se sacolejando junto a um elenco visivelmente constrangido. A ceia de Natal, mais fake que os quadros do programa do João Kleber, foi improvisada nos corredores da emissora e até a árvore discretinha colocada lá à guisa de cenário são o retrato fiel da penúria (de dinheiro e de ideias) que acomete a Rede TV!

Já no SBT, há o anúncio de apenas uma atração especial, um show de música promovido para levantar recursos para a Fundação do Neymar – realmente, um rapaz que precisa de dinheiro alheio para tocar suas obras sociais.

Edir Macedo, dono das empresas Record e Universal do Reino de Deus, nunca escondeu suas reservas quanto ao Natal – fruto de uma cruzada muito mais política do que religiosa contra a Igreja Católica. Sua emissora segue à risca a determinação e ignora o peso da data. A troca de presentes de amigo oculto entre os artistas do canal – que nasceu como quadro do Hoje em dia em 2006 e, inexplicavelmente, virou programa desde 2014 – estica o inesticável e é exibida em duas partes, como se de fato fosse algum acontecimento digno de nota.

Além disso, três estreias de araque: Elvis all star tribute, um especial da norte-americana NBC em homenagem a Elvis Presley, cujos números musicais estão disponíveis no YouTube desde fevereiro. Outro musical, estrelado por Michael Bublé, com canções de seu último álbum, lançado há mais de um ano, promete (sem muita chance, é verdade) trazer algum brilho para a noite natalina. Fechando o pacote requentado, Jesus de Nazaré, o filme de 1974 dirigido por Franco Zefirelli, visto e revisto um sem número de vezes, ganhará exibição acanhada na tarde do dia 24.

De novidade mesmo, só um especial de humor que nada tem a ver com Natal e estrelado por Eri Johnson – como se o ano já não tivesse sido penoso o bastante. Neste ponto, a Globo acerta mais, com seu tradicional programa de dramaturgia – que, pelo menos, tem Papai Noel como tema. Este ano, a história é protagonizada por uma família negra, mostrando que a emissora dos Marinho se cansou de ouvir as justas críticas pela falta de atores negros em suas produções e decidiu se movimentar. Se é um mea culpa ou apenas cortina de fumaça, o tempo dirá.

Em termos de shows, a grande aposta da Globo para este final de ano repousa nos amigos. Não nos dela, que diminuem a cada dia (a começar pelo presidente e o prefeito do Rio, bispo Crivella – uma espécie de Lord Voldemort, aquele que não se pode reeleger), mas sim os sertanejos e os indefectíveis Roberto e Erasmo. No dia 31, retorna o Show da virada; muito mais um grito de carnaval antecipado do que uma festa de Réveillon em si e, de resto, apenas mais do mesmo – como já é há muitos anos.

O desânimo da programação deste fim de ano é tão grande, que o único fio de esperança que nos resta está no streaming, mais particularmente na Netflix, com duas importantes estreias, de produção própria, marcadas para o dia 20.

Mesmo sem a menor ligação direta com pinheiros, renas ou trenós, promete bastante a primeira temporada de The witcher. O mais recente Superman, Henry Cavill, encarna um caçador de monstros mutante, personagem consagrado da literatura de fantasia e do mundo dos games. Mesmo que pareça uma tentativa de criar um universo parecido com o de Game of thrones, as primeiras notícias que chegam sobre a série são bastante animadoras. Vale conferir.

A outra é Dois papas, filme de Fernando Meirelles sobre a sucessão no Vaticano, quando Bento XVI pediu o chapéu e abriu caminho para o conclave que elegeu Francisco. Além do assunto sedutor, o encontro entre dois atores extraordinários (Anthony Hopkins no papel de Ratzinger e Jonathan Pryce interpretando Bergoglio) promete ser daqueles de abrir mares ao meio e mover montanhas, bem ao gosto da Bíblia. Este é imperdível.

Sei que Edir “Nada a Perder” Macedo não vai concordar comigo, mas entre tudo que a TV nos oferece neste fim de ano, nada poderia ser mais natalino do que este filme.

(A coluna de hoje é dedicada à memória de Nelson Hoineff, morto na tarde do último dia 15, aos 71 anos, após uma vida dedicada ao audiovisual. Diretor de TV e jornalista, Hoineff foi o criador do seminal Documento especial, programa que estreou há exatos 30 anos e foi responsável por mudar a cara do jornalismo na televisão brasileira, tanto nos temas, quanto na linguagem. Eterno curioso, especializou-se em TV digital e nos últimos anos dedicava-se ao cinema: dirigiu os documentários biográficos sobre Chacrinha, Cauby Peixoto e Agnaldo Timóteo.)

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