A Venezuela após o ataque dos EUA e a política militar que silencia a revolução

Atualizado em 5 de janeiro de 2026 às 15:11

Por que a Venezuela parece manter uma aparência de calma após a violação de seu território pelos Estados Unidos?

A resposta não está na superfície política, mas na arquitetura de poder que se consolidou após a morte de Hugo Chávez. Ao longo dos anos maduristas, quem ditou o compasso do país não foi a Presidência, mas o estamento fardado.

Dilma Rousseff, com acuidade rara, evidencia isso neste vídeo. No pós-Chávez, o ímpeto revolucionário se esmaeceu e o bolivarianismo foi mortalmente ferido.

A História — quando consegue ser ouvida — ensina que, no mundo burguês, confiar no comando militar sob qualquer bandeira, revolucionária ou autoritária, é erro recorrente. As Forças Armadas tendem a se alinhar aos interesses das elites econômicas. Na América Latina, essa tradição corporativa carrega uma herança aristocrática que se vê como casta acima da sociedade civil e, diante da turbulência, gravita instintivamente em direção ao poder financeiro.

Hugo Chávez compreendia essa dinâmica com precisão quase instintiva. Por ter vindo da caserna, sabia que a lealdade militar é sempre condicionada e jamais desprovida de cálculo; por isso mantinha vigilância constante sobre seus generais. Maduro, oriundo do sindicalismo e da política civil, não tinha o mesmo faro.

Ao entregar aos militares posições-chave da economia, da segurança e da gestão territorial, imaginou garantir estabilidade, mas a partir daí a lógica militar se impôs. Na verdade, institucionalizou uma dependência — e, nesse tipo de regime, dependência transforma o presidente em peça substituível. Militares não defendem projetos políticos, mas a autopreservação do estamento fardado e, sobretudo, o enriquecimento de suas altas patentes.

Diosdado Cabello, Vladimir Padrino López e Delcy Rodríguez

Nesse quadro, qualquer liderança civil — Maduro hoje, Delcy Rodríguez amanhã — permanece enquanto servir à racionalidade militar. Se ultrapassar os limites implícitos desse pacto, será removida sem alarde, tal como se troca uma peça de máquina.

É lamentável, mas é assim que a Venezuela de hoje se apresenta: não como herdeira linear do chavismo, mas como um Estado de vocação militar, no qual as Forças Armadas são o núcleo efetivo do poder e a política respira apenas até onde elas permitem, ou melhor, até onde lhes interessa.

Por fim, já não resta dúvida de que a cabeça de Maduro foi entregue pelos militares como tributo a Washington, e que a recompensa — ou, mais precisamente, o pagamento — virá sob a forma de uma torrente de dólares irrigando os bolsos das altas patentes a cada gota de petróleo saqueada do subsolo venezuelano pelas petroleiras estadunidenses.

A “calma” militar venezuelana não é serenidade; é uma pausa tensa administrada por uma corporação cujo propósito central é ser parceira no butim.