A Venezuela, quem diria, fecha o ano em clima de normalidade. Já os vizinhos… Por Fania Rodrigues, de Caracas

Shopping El Sambil, em Chacao

POR FANIA RODRIGUES, de Caracas

O ano termina com a Venezuela em normalidade. Depois dos diversos eventos de desestabilização e de agitações, esse país sul-americano chega ao final de 2019 sem grandes mudanças na estrutura política.

Os golpes de Estado falidos, a tentativa de passagem de uma ajuda humanitária pelas fronteiras da Colômbia e do Brasil, assim como o bloqueio econômico internacional não surtiram o resultado esperado pela oposição venezuelana: o governo de Nicolás Maduro não caiu.

Nas ruas de Caracas o que se vê é uma cidade golpeada pela crise, mas que funciona com relativa tranquilidade. No boulevard de Sábana Grande, zona de comércio popular, o movimento é frenético. É possível observar algumas lojas fechadas, efeitos da crise econômica e do bloqueio que assolam o país, mas a grande maioria está aberta e funciona em condições normais.

Também é possível ver lojas e lanchonetes que abriram suas portas recentemente ou que passaram por reformadas, como a padaria e lanchonete Moka, que foi remodelada. “É uma forma de atrair os clientes”, afirma o sócio-proprietário Rodolfo Gonçalves.

Em uma das ruas transversais ao boulevard está o Momoy Café que foi inaugurado recentemente e já faz sucesso. Mas, a pergunta que muitos fazem é: vale à pena investir em uma Venezuela em crise? O dono negócio diz que sim.

“Os que estão investindo, como eu, é porque acreditamos no país. O que acontece é que os comerciantes e empresários venezuelanos estavam acostumados a ter um retorno do investimento em dois ou três meses de negócio. Agora levamos muito mais tempo”, explica o empresário que pediu para manter o nome em anonimato.

Ele conta ainda que na mesma rua também foram abertos outros dois negócios: “um salão de cabeleireiro para crianças e uma lanchonete de hambúrguer.

Já o livreiro Nahuel Montenegro recorreu a uma das sete barraquinhas de livros autorizadas pela prefeitura de Caracas nessa época do ano. Afinal esse é um país que formou uma legião de leitores ávidos, sobretudo por literatura política. O governo distribui livros de graça, tanto de literatura universal, como venezuelana e os clássicos políticos.

A professora Maria José procurava o livro “Cavalo de Tróia” e Nahuel só tinha uma versão antiga, em dois tomos, de uma coleção já usada e que claramente havia passado pelas mãos de vários leitores. A professora olha, olha e termina comprando. Os dois tomos lhe custaram um salário mínimo, 300.000,00 bolívares (o equivalente a R$ 26,00).

O livreiro explica que existem duas realidades bem marcadas na Venezuela. Uma delas inclui as pessoas que estão em situação precária, que em geral ganha um salário mínimo e uma cesta básica subsidiada pelo governo.

A outra parcela da população é aquela que ganha em dólares, seja porque trabalha para uma empresa estrangeira ou tem algum tipo de comércio que cobra em dólares. Tem também aquelas pessoas que recebem recursos de algum familiar que mora fora do país.

“Vivemos dois extremos. Porém ainda existem algumas alternativas que tornam a vida aqui mais barata que em outros países, como as feiras de alimentos que vendem frutas, verdura e proteínas a preços muito baratos, como as que estão nos bairros de Cátia e de Coche. Se souber os lugares certos onde comprar posso dizer que com U$ 50 por mês vocês faz milagre aqui na Venezuela”, afirma Nahuel Montenegro.

Além disso, muita gente vem para essa zona de comércio de Sábana Grande apenas para passear, tomar um sorvete e levar os filhos para passear.

“Às vezes a diversão é vir aqui, as crianças correm, brincam, tomam um sorvete e já ficam felizes. As crianças não têm porque saber dos problemas dos adultos”, diz dona Yuleide Ospino, de 58 años, que levou as duas netas para tomar sorvete. “Está muito bom”, confirmou a pequena Maria Elisa, com seu melhor sorriso.

O bulevar de Sábana Grande

Sorvete é algo a que os venezuelanos não resistem. As sorveterias estão sempre lotadas e até com filas longas. Além de gostoso, o sorvete de Sabana Grande tem um valor cabe no bolso de muitos venezuelanos, segundo o jovem estudante Jesus Marrero.

“Aqui o sorvete é gostoso e os preços estão acessíveis para que as pessoas possam desfrutar. O cascão (com duas bolas) custa em 27 e 30 mil bolívares (cerca de R$ 3)”, diz Jesus.

O boulevard de Sábana Grande é justamente a linha simbólica que separa as zonas populares, conformadas pelo centro e zona oeste, da região mais abastada da cidade, que é a zona leste.

A um quilômetro dali está o bairro de Chacao, uma região de classe média alta. No entanto, os bairros mais luxuosos da capital ficam na periferia da zona leste, na parte alta de Caracas formada por um vale.

Chacao abriga o maior shopping da cidade, El Sambil, que não é o mais luxuoso, pois há pelo menos dois ou três mais exclusivos. Mesmo assim é possível encontrar lojas de marcas como Mont Blanc, Giorgio Armani, La Martina e Carolina Herrera, que é de origem venezuelana.

O estudante Jaime Rios, de 24 anos, é de Maracay, cidade vizinha da capital venezuelana, e estava em um típico dia de compras. Levava nas mãos dois pareces de sapatos recém comprados e explicou como alguns venezuelanos ainda conseguem manter seu padrão de consumo.

“Muitas pessoas têm familiares que moram fora da Venezuela e enviam dinheiro. Aqui todos os preços agora são marcados em dólares e apesar disso as lojas continuam vendendo bem”, destaca o estudante.

Assim também a modelo Mariana Martines, de 23 anos, fala sobre essa outra Caracas onde tudo se compra em dólares. “Existem shoppings muito lindos, que são excessivamente caros e onde não é todo mundo que consegue comprar. E que apesar da crise não deixam de funcionar. Dizem que está tudo muito difícil, mas aqui vemos as pessoas comprando, comendo”, diz a modelo.

Ao tempo que para uns a diversão está em compras em shoppings caros, para outros a simplicidade de uma boa conversa, em uma das praças públicas mais emblemáticas de Caracas, como é a Praça Bolívar, é o que realmente os fazem felizes.

Enquanto crianças correm e gritam, Juan Fuentes, Oswldo Banixa e Jorge Navas travam uma calorosa conversa sobre a atual situação do país. São da velha guarda revolucionária, a esquerda tradicional venezuelana.

“Quase todas as tarde nós nos entramos aqui com os camaradas, esse foi um acostume que adquirimos depois do golpe de 2002, contra o comandante Hugo Chávez. Naquela época não havia internet no celular, então a gente tinha pontos de encontros para se juntar e saber o que estava acontecendo. Isso nós mantemos até hoje aqui na Praça Bolívar”, explica Juan Fuentes.

Depois das 16h trabalhadores do Centro e seus arredores vão aglomerando-se na Praça Bolívar e ali praticam um verdadeiro debate político, quase que a diário.

Afinal, a Venezuela respira política. Independentemente de como começa uma conversa, nesse país, sempre termina em política, independentemente da ideologia.

O Momoy Café, em Caracas

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