Como a Virada Cultural virou Virada Criminal

O problema de levar 4 milhões de pessoas num dia a uma região desprezada o resto do ano inteiro.

Suplicy perde a carteira e o celular de volta
Suplicy pede a carteira e o celular de volta

A Virada Cultural de São Paulo tinha tudo para ser algo de que os paulistanos se orgulhassem. Existe desde 2005 e é inspirada nas Nuits Blanches de Paris. Uma de suas motivações oficiais é o “renascimento do centro, que habitualmente se esvazia à noite”. Bem, não adianta enchê-lo num dia do ano e esquecê-lo pelos outros 364. A Virada tornou-se uma vitrine do horror em que se transformou a segurança pública e do abandono do centro da maior metrópole do Brasil.

O apelido “Virada Criminal” pegou. Segundo a Folha, no 3º DP, na Rua Aurora, mais de 40 pessoas esperavam atendimento numa tarde, sendo que tinha gente que estava lá desde a véspera. Eram vítimas de assaltos, brigas, furtos etc, tentando fazer um boletim de ocorrência.

Houve vários arrastões. Ao menos 25 suspeitos foram detidos.

O garoto Elias Martins Morais Neto, 19 anos, morreu com um tiro na cabeça depois de tentar recuperar o celular. O primo dele foi agredido. O assassinato ocorreu na Avenida Rio Branco, perto do 3º DP.

Um rapaz foi esfaqueado no Viaduto do Chá. Outros foram espancados. O senador Eduardo Suplicy subiu ao palco de Daniela Mercury para pedir que lhe retornassem seu celular e a carteira. “Podem ficar com o dinheiro, mas devolvam os documentos”, pediu. A carteira reapareceu. E vida que segue.

Houve a suspeita de que a PM pudesse estar fazendo corpo mole para prejudicar a prefeitura, organizadora do evento. Segundo o sargento Rodrigo Campelo, com quem falei, o arranjo não é bem esse: “Há um acerto da prefeitura com a PM para que a polícia não pegue pesado com os frequentadores. São muitos jovens e a repressão não interessa a ninguém”.

“Vi muita covardia nas ruas. O que eu vi ontem no centro está longe de ser uma evolução”, afirmou Mano Brown durante a apresentação dos Racionais MCs. Não adianta que 4 milhões ocupem o centrão durante uma noite, numa espécie de safári. Vá à Praça da República no próximo domingo de manhã. Eu estive lá com meus filhos recentemente. Não há nostalgia que sobreviva a anos de desprezo oficial.

A Virada Cultural é como uma festa numa casa abandonada, cujo dono ninguém gosta. Passadas 24 horas de shows e piadas, tudo volta ao que era antes. Até o ano que vem, quando por mais uma noite alguém se lembra do lugar – mas não para lamentar que ele esteja atirado às traças, sujo, caótico e detonado, mas para destruí-lo um pouco mais, até não sobrar nada.

Mano Brown: "Vi muita covardia nas ruas do centro"
Mano Brown: “Vi muita covardia nas ruas do centro”

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