A vitalidade dos jovens colombianos. Por Moisés Mendes

Jovens colombianos nas manifestações. Getty Images

Publicado originalmente no blog do autor:

Esta foto de uma das manifestações em Bogotá durante essa semana aciona interrogações que têm respostas ainda imprecisas. A primeira pergunta é: como tantos jovens se mobilizaram contra o governo do direitista Iván Duque, a partir da revolta contra uma reforma tributária?

Os jovens não começaram protestando contra medidas que representem uma agressão à educação, às universidades e aos estudantes. Eles se levantam contra um pacote de aumento de impostos sobre combustíveis, gás e energia elétrica.

Os jovens saem às ruas da Colômbia contra tributos? Tente compreender que não pode ser somente isso e saia atrás de alguns ensaios de respostas.

A reforma tributária apenas puxou o gatilho de insatisfações acumuladas, nas mais variadas áreas. Há também o plano de uma reforma trabalhista, que retira direitos. E uma reforma previdenciária, que poderia entregar as aposentadorias ao setor privado.

Há o empobrecimento da classe média, a transformação de pobres em miseráveis, desemprego, desalento, luta pela universidade pública, apelo desesperado por mais auxílio emergencial.

A reforma tributária talvez seja apenas o pretexto para a faísca que incendiou a Colômbia, um país que, apesar dos estigmas criado pelos cartéis das drogas e pelas guerras com as Farc, não chega a ser citado entre os que têm os problemas mais sérios com a democracia na região.

O que se diz é que os acordos com as Farc, não cumpridos pelo governo, acabaram por voltar a expor os problemas do país, que passou meio século concentrado na guerra governo X guerrilha. Os colombianos estão enxergando melhor as suas misérias, em especial nos últimos anos.

A Colômbia tem sindicatos que ainda mobilizam, tem tradição de luta (Duque não tem paz desde que assumiu em 2018) e tem uma juventude vigorosa que não quer sair das ruas, mesmo que cerca de 40 manifestantes já tenham sido assassinados a tiros pela polícia, centenas tenham sido presos e mais de 60 estejam desaparecidos.

Olhando-se a foto do alto (vejam o detalhe do skate) e a foto acima, tenta-se compreender essa capacidade de mobilização em meio a uma pandeia e contra a polícia e paramilitares milicianos da extrema direita. Eles já derrubaram o ministro da Fazenda, Alberto Carrasquilla.

E a pergunta mais incômoda acaba sendo essa: por que em outro país em que a universidade pública está sendo aparelhada e destruída não acontece nada?

Falta uma reforma tributária no Brasil? Meia dúzia de brasileiros deve saber que o projeto de reforma existe e será votado na moita na Câmara em manobras comandadas por Arthur Lira.

É a tal reforma fatiada. Pergunte a alguém o que isso significa. Ninguém sabe, só Lira, Paulo Guedes, alguns deputados e o mercado. E daí?