A XP torna-se vítima da inquisição da Lava Jato, que ela ajudou a estimular. Por Luis Nassif

PUBLICADO NO GGN

POR LUIS NASSIF

Antes de ter sua corrupção exposta, a Lava Jato fez a maior campanha negativa contra o Brasil, em toda sua história. Vendeu para o mundo a ideia de que era um país de corrupção endêmica.

Esse desatino, contra todo um país, foi plenamente apoiado por empresas interessadas em surfar na onda. Em se blindar contra os novos poderosos da Lava Jato ou em influenciar na mudança de políticas públicas que pudessem favorecer seu negócio.

Nenhuma instituição se empenhou mais no endosso à Lava Jato  do que a XP, mesmo porque, seu principal concorrente, o BTG, estava implicado até o pescoço com os grandes negócios investigados pela Lava Jato. E saiu milagrosamente incólume.

A XP contratou pessoas ligadas ao meio jurídico, premiou Ministros do Supremo Tribunal Federal, como Luiz Fux, e procuradores da Lava Jato, como Deltan Dallagnol, com cachês milionários para palestras abertas ou encontros fechados com grandes investidores. Ao mesmo tempo, investiu fortemente na imagem de Luciano Hulk, com evidentes propósitos políticos e do próprio fundador da companhia, Guilherme Benchimol.

Esse personalismo pode estar por trás de uma revoada de executivos que abandonaram a empresa no último ano.

Esta semana, a XP se tornou alvo de duas ações coletivas abertas por escritórios americanos especializados, devido a supostas irregularidades encontradas no seu IPO – o bilionário lançamento de ações no mercado americano.

Mesmo assim, é bom ficar com um pé atrás com essas ações coletivas. Elas se transformaram em um negócio com duas estratégias: obter ressarcimentos bilionários ou por sentenças ou por acordos.

A consolidação da imagem do Brasil como nação corrupta, pelos amigos procuradores de Guilherme Benchimol,  acabou expondo todas as empresas brasileiras com ações nas bolsas americanas a ações coletivas. Hoje em dia, executivos brasileiros em viagem aos EUA correm o risco de serem presos – como ocorreu com o respeitável José Carlos Grubish, pelo fato de ter sido presidente da Brasken. E as empresas brasileiras se tornaram alvos preferenciais das ações coletivas, porque na ponta julgadora sempre haverá um juiz que acreditou que o Brasil é uma nação intrinsicamente corrupta.

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Os escritórios das ações coletivas

Um dos escritórios que ingressou com a ação coletiva, o Block & Leviton, se gaba de ter sido um dos quatro principais demandantes de ações coletivas nos EUA.

Segundo o anúncio do escritório,

“A Block & Leviton LLP é uma empresa dedicada a representar investidores e manter a integridade dos mercados financeiros do país”.

Outro escritório, a Rosen Law Firm diz que, menos de três meses após o IPO da XP, o The Winkler Group publicou um breve relatório levantando muitas questões sérias sobre a precisão das finanças da XP. Entre outras alegações, o relatório alega que há discrepâncias significativas entre as auditorias internas da XP e as demonstrações financeiras que a empresa forneceu aos investidores em seu prospecto de abertura de capital. O relatório também alega que “a XP demitiu seu auditor depois que ele encontrou deficiências materiais em seus relatórios financeiros [.]”

O relatório acusador

As duas ações se baseiam em um relatório produzido pelo Grupo Winter.

É uma empresa de consultoria que vende seu peixe da seguinte maneira.

“E as cores do nosso logotipo? Por que azul e ouro? O azul é a minha cor favorita, mas mais importante, o azul e o ouro são cores bíblicas. (…) Mais do que apenas trazer talentos excepcionais para nossos clientes, desejamos imitar a humilde confiança por meio da liderança bíblica dos servos”.

O relatório aponta uma série de irregularidades do IPO:

● O XP atualizou os números de EPS várias vezes antes do IPO

● As demonstrações financeiras contraditórias do XP revelam que pode estar exagerando o valor de seu núcleo ativo em R $ 44 milhões

● As auditorias internas da XP revelam uma discrepância de R $ 38 milhões na receita anual relatada em uma auditoria versus a auditoria do ano seguinte de seu ativo principal

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● As auditorias internas da XP revelam uma discrepância de R $ 167 milhões no fluxo de caixa anual de operações relatadas em uma auditoria versus a auditoria do ano seguinte de seu ativo principal

● As fraquezas materiais do XP foram identificadas anos antes do XP dizer que estavam em seu IPO prospecto

● A XP demitiu seu auditor depois que ele encontrou deficiências materiais em seus relatórios financeiros

● O ex-CFO da XP estava envolvido em um esquema de manipulação e depois foi promovido ao conselho de administração e o comitê de auditoria

● O novo CFO da XP afirma que ele manteve o cargo sete anos, apesar de apenas começar agora.

● A XP foi acusada de violar conscientemente as leis de valores mobiliários e os regulamentos da FINRA em US $ 10 milhão

● A XP adquiriu uma empresa por 10x seu valor de mercado de um empresário alvejado em uma empresa suíça sonda de lavagem de dinheiro do banco

● As práticas contábeis irregulares da XP aumentam o ágio dedutível em 200%

● O XP não divulgou quase US $ 1 milhão em transações com partes relacionadas em seu prospecto de IPO

● A XP contratou um corretor que supostamente foi demitido por violar as regras de seu chefe de conformidade dos EUA

● XP não está divulgando R $ 100 milhões em falhas e erros no sistema em seu prospecto de IPO

● O CEO da XP lucrou ao prejudicar os clientes e não divulgou uma multa de R $ 5,47 milhões à frente de seu lançamento do livro e IPO .

Parte do relatório foi obtida através do são Google, aparentemente com pouco discernimento. Por exemplo, acusa a XP de ter informado a data errada da entrada de um CFO na companhia, baseado em um perfil não atualizado no Linkedin. Aparentemente também não entendeu como funciona o sistema de ágio na contabilidade brasileira.

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Recentemente, em dia de grandes vendas no mercado, o sistema da XP emperrou impedindo que vários clientes pudessem vender seus papéis. O caso ganhou proporção pois a XP estava apostando na alta do mercado.

O relatório não chegou a tratar desse tema, mas lembra outra operação em que a XP foi acusada de impedir que fossem executadas ordens dos clientes, ou executadas com atrao. Essa operação teria dado um lucro de R$ 5,47 milhões à XP. Em 12 de agosto de 2019 ela foi condenada a ressarcir os clientes.

O produto em questão era o Retail Liquidity Provider, um sistema de robôs que teoricamente garantia aos clientes a melhor cotação do dia na compra e venda de cada papel. Houve problemas em alguns contratos, por diferenças de milésimos de segundo nos fechamentos. Mas não ficou configurada manipulação das ações, conforme o relatório.

Muitos dos pontos apresentados no relatório são as ressalvas registradas em balanço pela empresa de auditoria contratada, algumas das quais relacionadas com maneiras como se trata o ágio na contabilidade brasileira, e de valores irrisórios, com baixíssima influência nos resultados finais da companhia.

Na nota divulgada, a XP diz

“Observamos que tal empresa de investimentos não é uma empresa de análise (equity research) e, como se não bastasse, trata-se de investidor que afirma estar com uma posição vendida em ações da XP Inc. O relatório contém diversos erros e possui pontos que são imateriais ou irrelevantes”. 

De qualquer forma, os problemas enfrentados dão razão aos sócios que se retiraram da companhia por discordar do novo estilo do fundador, Guilherme Benchimol. Estrelismo não combina com atividade financeira. Ainda mais em uma área sensível, como o mercado.

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