Abril despedaçada: para tentar estancar a sangria, grupo deve voltar ao velho prédio na Marginal Tietê. Por Miguel Enriquez

Giancarlo Civita, ex-presidente da Abril: recuperação judicial

POR MIGUEL ENRIQUEZ

O pedido de recuperação judicial do Grupo Abril, aceito pelo juiz Paulo Furtado Oliverio, da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo pode ter surpreendido muito gente, menos os leitores do DCM. No dia 8 de maio deste ano, há pouco mais de três meses, portanto, publicamos um aritigo com o título “Fake news e processos contra a Veja ajudam a cavar prejuízo de R$ 768 milhões da Editora Abril.”

Baseado em informações do balanço referente a 2017, auditado pela PricewaterhouseCoopers (PwC), o texto demonstrava como a perda de credibilidade e o jornalismo de esgoto praticado pela semanal, carro-chefe do grupo, derrubara sua circulação e vinha afetando os resultados financeiros dos negócios da família Civita.

De 1,2 milhão de exemplares semanais, a circulação da Veja mergulhou em queda livre, resumindo-se a algo em torno de 450 mil, atualmente. Esse processo contribuiu enormemente para que o grupo acumulasse nada menos de R$ 768 milhões de prejuízos, nos últimos três anos, e visse suas receitas despencarem de R$ 1,4 bilhão para R$ 1 bilhão nesse período.

Paralelamente, o endividamento empinava, chegando à casa de R$ 1,6 bilhão, valor registrado no pedido de recuperação judicial apresentado numa das Varas de Recuperação Judicial e Falências de São Paulo, na quarta feira, 15, menos de quatro semanas depois do comando do grupo ter sido assumido pela consultoria Alvarez & Marsal.

Com a terceirização da gestão, Giancarlo Civita, neto do fundador Victor Civita, foi substituído na presidência pelo consultor Marcos Haaland, com quem alinhavou o pedido de recuperação judicial, agora deferido pela Justiça. Mesmo afastado, Gianca, como é mais conhecido, foi o encarregado de comunicar essa decisão a alguns dos principais credores. Um deles foi Candido Bracher, presidente do Itaú, com quem esteve no final de julho.

Coube a Haaland avisar ao mercado sobre a decisão de recorrer à recuperação judicial. Segundo ele, de nada adiantaram, para acalmar os credores, fornecedores e anunciantes, os cortes de 800 funcionários (150 deles jornalistas) e o fechamento de uma dúzia de publicações, efetuados na primeira semana de agosto, o que deveria ser um sinal de que a Abril estaria fazendo a lição de casa e enfrentando decididamente os seus problemas financeiros.

Ao contrário, a reação foi exatamente oposta, em particular dos bancos, que resolveram fechar as torneiras do crédito. “Sofremos algumas ações abruptas e não esperadas, que começaram a tolher nosso capital de giro”, disse Haaland.
Isso fez precipitar a decisão de recorrer à Justiça. “Não estava nos planos originais entrar em recuperação judicial tão rapidamente”, afirmou Haaland ao jornal Valor. “Recuperação judicial não é estratégia, é defesa.”

A principal dívida da Abril é uma debênture de R$ 950 milhões, com início de amortização previsto para 2021. Os credores são um consórcio de bancos. Além disso, há outras dívidas bancárias menores, além de débitos com fornecedores.

De acordo com a publicação, o grupo listou a crise e a queda expressiva das receitas de publicidade, das vendas por assinatura e nas bancas como os principais motivos para o pedido. O custo da reestruturação da empresa — a demissão de funcionários, o encerramento de revistas — também terminou por ter impacto negativo no fluxo de caixa.

Individualmente, o maior credor é o Bradesco, com R$ 500 milhões pendurados, seguido pelo Itaú, de Bracher, com R$ 250 milhões, e pelo espanhol Santander, com um pouco menos, de acordo com estimativas do mercado.

A reportagem do Valor mostra, ainda, que o pedido de recuperação judicial cobre todas as quatro unidades de negócios do Grupo Abril: a Abril Comunicações, que publica as revistas; a gráfica, que presta serviços para a companhia e terceiros; a distribuidora de publicações, com o mesmo perfil de atuação e que, no ano passado, perdeu seu principal cliente, a italiana Panini, de álbuns e figurinhas; a Total Express, voltada 100% à prestação de serviços terceirizados, principalmente a entrega de produtos vendidos por lojas virtuais.

Com a aceitação do pedido de recuperação judicial, a Abril terá 60 dias para apresentar um plano de recuperação aos credores. A partir disso, a dívida de R$ 1,6 bilhão ficará congelada e a empresa entrará em um período de proteção judicial de 180 dias, em que não poderá ser executada pelos credores. A administração judicial da recuperação foi entregue à consultoria Delloite, que receberá R$ 100 mil mensais pelo trabalho.

A adesão a esse mecanismo, por ironia da história criado justamente no primeiro mandato do presidente Lula, alvo favorito do jornalismo predatório e antiético praticado pela Veja, a Abril ganhará um prazo para tentar estancar a sangria e reequilibrar suas contas.

No mercado financeiro, no entanto, há sérias dúvidas de que, mesmo com a recuperação judicial, a Abril possa dar a volta por cima e se transforme numa empresa viável novamente. O grupo padece de custos altos, geração de caixa em queda e conta com poucos ativos para vender, o que tornaria remotas as chances de recuperação dos empréstimos contraídos. Da mesma forma, a possibilidade de que encontre um comprador seria reduzida.

Há quatro grupos de credores: com garantia real, sem garantia, trabalhistas e pequenas e microempresas. Só no caso dos credores trabalhistas há exigência legal para liquidação dos débitos em, no máximo, 12 meses. Desde o ano passado, por escassez de caixa, as indenizações dos funcionários já vinham sendo pagas em 10 parcelas mensais. “Estamos fazendo um grande esforço para tentar antecipar ao máximo o passivo trabalhista”, disse Haaland.

Atualmente, a Abril conta com 24 marcas, entre revistas, sites e serviços voltados a empresas, como a produção de conteúdo patrocinado. Não há planos de diminuir o número de marcas. “O que tínhamos de fazer, já fizemos”, disse Haaland ao Valor. Também não está em discussão vender marcas para outras companhias.

As revistas sobreviventes Veja, Veja São Paulo, Exame, Claudia, 4 Rodas, Saúde, Superinteressante, Você S/A e Você RH continuarão a ter versões impressas e digitais. Outras, a exemplo de Viagem & Turismo, VIP e Placar podem ter conteúdo apenas na web, como já ocorre com títulos como Capricho e o portal MdeMulher.

Oficialmente, a Abril atribui as vicissitudes atuais a dois fatores, divulgados no site de sua revista de economia e negócios, a Exame: a ruptura tecnológica, que faz com que seja preciso repensar o modelo de produção e distribuição do conteúdo, e a crise econômica que o país vem enfrentando.

Nesse diagnóstico, porém, não há uma só palavra sobre as responsabilidades de seus controladores e executivos no esforço hercúleo empreendido há muito tempo para levar o grupo à bancarrota. Nessa louca cavalgada, é preciso reconhecer, teve um papel decisivo Roberto Civita, pai de Gianca e herdeiro do fundador da Abril, falecido em maio de 2013.

Nada sobre a cegueira de Roberto e seus executivos em relação à tal ruptura tecnológica que, convenhamos, não começou ontem. Cegueira que fez com que a Abril, onde prevaleciam os que poderiam ser chamados de “cabeças de papel”, por sua fixação nas publicações impressas, subestimasse a importância das mídias digitais. E que entregasse quase de graça seu portal de internet, o Brasil Online (Bol), para o grupo Folhas, dono o UOL.

Nada, também, para ficar em apenas dois exemplos, sobre decisões temerárias, como o investimento no setor de televisão por assinatura, em que foram desperdiçadas montanhas de dinheiro, com negócios como a DirectTV e a TVA, esta vendida à empresa de telefonia celular Vivo, na bacia das almas.

Um dos braços principais da articulação que garantiu o apoio midiático ao golpe que derrubou a presidente Dilma Rousseff e levou Michel Temer & companhia ao poder, a Abril se queixa da queda vertiginosa das vendas de receitas de seus negócios provocada pela crise que ela mesma ajudou a criar, seja reforçando a sabotagem ao governo Dilma, seja apoiando a política econômica dos golpistas.

Em entrevista à Veja, Haaland afirmou que, entre 2014, ano em que Dilma foi reeleita, e 2017, sob Temer, a circulação total de revistas caiu de 444 milhões para 217 milhões de exemplares, no país. Ao mesmo tempo, a participação das revistas nos investimentos em publicidade das grandes empresas, que em 2010 era de 8,4%, diminuiu para 3% em 2017, certamente por conta da concorrência das mídias digitais.

Evidentemente, esse cenário não é uma particularidade do Brasil. No mundo inteiro, a emergência das novas plataformas digitais provocou uma devastação no mercado tradicional de jornais e revistas, com o encolhimento e mesmo a extinção de um sem-número de publicações que não souberam se antecipar ou adequar diante da nova realidade.

Mas não faltam exemplos de superação de superação desse quadro adverso. É o caso do New York Times, o maior grupo jornalístico dos Estados Unidos. Num primeiro momento, suas vendas minguaram em função da concorrência e da perda de leitores e publicidade para a mídia digital. Graças a um gigantesco esforço de reinvenção, o jornal está perto de chegar à marca de 4 milhões de assinantes. No início de agosto, o NYT contabilizava 2,89 milhões de assinantes exclusivos de seu serviço digital e um milhão na edição impressa. Resultado: no segundo trimestre deste ano, o jornal exibia um faturamento de US$ 415 milhões, com lucro de US$ 29 milhões.

Para ficar no ramo de revistas, em que atua a Abril, outro excelente benchmark é a The Economist, a tradicional publicação inglesa, fundada em 1834. Leitura obrigatória de empresários, executivos e políticos ao redor do mundo, a Economist exibe uma robusta carteira de 1,5 milhão de exemplares, 282 mil deles em sua versão digital.

Além da agilidade no enfrentamento dos novos desafios tecnológicos, tanto o NYT quanto a The Economist valeram-se de dois fatores decisivos para sua sobrevivência: credibilidade e confiança. Por conta do chamado “efeito Trump”, como foi batizada sua cobertura política do governo do atual presidente, o jornal americano conquistou cerca de 1 milhão de assinantes, desde 2016.

Credibilidade e confiança, evidentemente, são matérias primas escassas em revistas como a Veja, o que dificulta a recuperação da Abril e o trabalho dos consultores.

Mesmo assim, Haaland se permite fazer previsões otimistas quanto ao futuro da Abril. “Vamos sair da recuperação judicial, quanto antes, com a empresa novamente saneada e em condições de ter um longo futuro digital”, disse ao site da Exame.
Com outras palavras, é o que diziam, por dever de ofício, os consultores contratados a peso de ouro para tirar do buraco empresas como a Mesbla, Mappin, Varig e OSX, estas últimas, por sinal, entregues aos cuidados da Alvarez & Marsal.
Deu no que deu.

Em tempo: Comenta-se, nos corredores da Abril, que a empresa, que acaba de trocar de endereço, deverá chamar os caminhões de mudança novamente. A ideia é voltar ao antigo prédio da Marginal do Rio Tietê, na vizinhança do parque gráfico, que na primeira metade dos anos 1970 abrigava as redações das publicações da empresa. Com o enxugamento do portfólio de revistas, o retorno às antigas instalações faz sentido, em nome da redução de custos.

O velho prédio na Marginal Tietê pode ser o destino da Abril

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