Ação em rede quer envolver os 453 mil bancários do país em campanha salarial. Por Cláudia Motta

PUBLICADO NA REDE BRASIL ATUAL

POR CLÁUDIA MOTTA

Os números que envolvem a categoria bancária são grandiosos. Entre bancos públicos e privados são 453 mil trabalhadores distribuídos por mais de 38 mil locais de trabalho em todo o Brasil. Servem a um setor que não sabe o que é crise. Em 2019, somente as cinco maiores instituições financeiras (Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú e Santander) somaram lucros de R$ 108 bilhões, alta de 30,3% em relação ao ano anterior. A convenção coletiva de trabalho já conta 28 anos e é considerada referência de negociação.

Ao longo de décadas, bancários em campanha é sinônimo de grandes atos de rua, paralisações, greves. Em tempos de isolamento social, no entanto, estão inovando – como já fizeram outras vezes na história. A campanha nacional 2020 será marcadamente virtual.

Ferramentas digitais para a realização de assembleias e das conferências estaduais e nacional permitiram a participação de milhares de trabalhadores por todo o país. Desde a consulta por meio da qual os bancários opinam sobre as prioridades a serem debatidas na mesa de negociação com a federação dos bancos (Fenaban) até a participação em assembleias e nas mesas que trataram das reivindicações apresentadas aos patrões nesta quinta-feira (23), tudo foi feito a distância. Não por acaso, uma das principais demandas da categoria está na manutenção de direitos e na defesa da saúde diante do teletrabalho, que já abrange milhares de bancários.

Presença inovadora

RBA ouviu as coordenadoras do Comando Nacional dos bancários, Juvandia Moreira e Ivone Silva, para falar dessa campanha inédita.

“Sem dúvida, os bancários em campanha sairão na frente na regulação do teletrabalho”, avalia Juvandia, que é presidenta da Confederação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT). “Não que outras categorias já não tenham esse desafio. É que a gente tem uma cláusula muito completa, construída com base na realidade do que as pessoas já estão vivendo, com base no diálogo com esses trabalhadores sobre o que eles estão passando, sobre o que eles estão sentindo. E com base na legislação de outros países, como Portugal, que é um dos países que tem legislação mais avançada em relação ao teletrabalho.

A presidenta da Contraf considera “muito rico” todo esse novo processo da campanha 2020, que rendeu intensa participação. “Deu muito certo. Nós aprendemos que podemos e devemos aprender a usar a tecnologia a favor da nossa organização.”

Ivone Silva, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, um dos maiores do país, completa: “A tecnologia tem de estar a favor da sociedade. Tem de ser pra diminuir a quantidade de horas trabalhadas, para que as pessoas possam viver melhor. O que a gente está vendo são empresários utilizando a tecnologia para baixar seus custos, aumentar jornadas, reduzir o salário. Essa é a grande questão”.

Ivone defende que, enquanto houver essa forma de organização da economia, enquanto houver o capitalismo, sempre vai precisar existir sindicato. “Nesse momento mais crítico da vida dele, que é o dessa pandemia, o trabalhador viu a importância de ter um sindicato forte. Porque foi o sindicato que negociou pra que ele pudesse ficar em casa e manter seus direitos. Ele reconhece isso.”

Nem novo, nem normal

O “novo normal” no ambiente de trabalho, avalia Juvandia, já é realidade na vida dos bancários, e um desafio nessa campanha. “Queremos que esse ‘novo normal’ seja um novo normal sem adoecimento, que não aprofunde o adoecimento mental, que já era presente na nossa categoria, em função das cobranças excessivas de metas. Conciliar essa nova realidade com os resultados que são cobrados é o nosso novo desafio de construção.”

No dia a dia da sociedade, no entanto, Ivone Silva considera o “esse tal novo normal” muito questionável. “Se for pra continuar vendo morte, se for pra continuar essa pobreza que já havia, se for para continuar essa sociedade tão desigual, nós não podemos considerar isso como normal”, diz. “Eu tinha muito mais esperança que nessa pandemia mais gente mudasse. Eu fico muito decepcionada de ver o quanto as pessoas estão normalizando a questão das mortes todos os dias. Por isso que eu questiono esse tal de novo normal: que novo normal é esse? Não dá pra aceitar a normalidade disso.”

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!