Acertou na lata dos “cidadãos de bem” e dos falsos moralistas. Por Kakay

Atualizado em 20 de fevereiro de 2026 às 10:07
Imagens criadas por IA ao comando de Deltan Dallagnol e Sóstenes Cavalcante. Foto: reprodução

O desfile da Acadêmicos de Niterói, em homenagem àquele que o jornal Guardian, de Londres, disse ser o maior brasileiro de todos os tempos, foi uma lavada de alma. Da avenida, ao desfilar, pude ver a emoção das pessoas ao cantarem o samba. E foi uma sensação que dominou a todos. Foi leve e envolvente.

A escola, com o tema, claro, de sua livre escolha, optou por elogiar o homenageado e, como sempre ocorre no Carnaval, fazer troça com os adversários. Esse sempre foi o espírito do Carnaval. Seja dos blocos de rua ou dos sambas-enredo.

O Carnaval sempre foi uma explosão de alegria, irreverência, provocação, humor, inteligência, ousadia e ironia. Ou seja, tudo o que a ultradireita não tem. Era de se esperar um bando de bolsominions sentados em frente à televisão, com ódio e mau humor, tentando entender o samba e anotando tudo o que, na visão míope e reacionária, pudesse, de alguma maneira, ser questionado.

Enquanto nós nos esbaldávamos na alegria, no prazer e no gozo, os direitistas bolsonaristas sofriam e se descabelavam. É hilário pensar nessa cena. E é real.

O ponto alto da insatisfação veio dos que se consideram “gente de bem”. Melhores do que todos os não reacionários. Os que se dizem superiores, acima das pessoas que são humanas, inclusive nos erros e nos excessos.

São os que pregam contra os gays, contra a folia no Carnaval e contra o sexo antes ou fora do casamento. Os mesmos que, com frequência, envolvem-se em pedofilia, em agressão às mulheres, em grandes esquemas de corrupção, em racismo e em misoginia. Demonstraram, em público, que estavam ofendidos por serem retratados enlatados, numa lata de conserva com o nome de “família conservadora”, numa manifestação que buscou exatamente mostrar o falso moralismo.

Fantasias da Acadêmicos de Niterói que zombaram da família conservadora. Foto: Duda Monteiro de Barros/Veja

Esses falsos puritanos devem estar sempre com medo do que pode aparecer, pois muitos deles são hipócritas.

Vestem, durante todo o ano, a fantasia de “cidadão de bem” e não percebem que essa fantasia já caiu há muito tempo. Estão nus e expostos ao ridículo. Todo mundo, com alguma lucidez, viu, sentiu e percebeu o que foram os 4 anos dos bolsonaristas no poder. Um show de mentiras, de falsidades, de agressão aos invisíveis sociais e aos que não se submetem à cartilha reacionária que eles pregam sem cumprir.

É óbvio que as pessoas têm o direito de ser conservadoras, reacionárias até, mas não têm o direito de impor uma maneira de estar no mundo aos que pensam e agem diferente.

Aceitar o diferente é que faz as pessoas viverem em harmonia, com respeito exatamente às divergências. Não são as mentiras, as agressões veladas ou explícitas. Não é uma vida dupla, falsa e moralista. Esses, sem dúvida, merecem ser retratados numa lata de conserva, e é uma pena que precisem viver uma vida dupla, sendo infelizes. Que não percebam que deveriam aproveitar o Carnaval para se despir da fantasia de “homens e mulheres de bem”.

Se não fossem hipócritas, já ajudaria muito. Vivam a vida com inteireza, franqueza, honestidade intelectual e respeitem para merecerem ser respeitados.

Cantando “Noite dos Mascarados”, do mestre Chico Buarque:

Quem é você?

“Adivinha, se gosta de mim

“Hoje os 2 mascarados…

E, para terminar, vale o refrão democrático da escola Acadêmicos de Niterói neste ano na Sapucaí:

Lute pra vencer

Aceite se perder.”

Kakay
Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido pela alcunha de Kakay, é um dos maiores advogados criminalistas brasileiros. É também poeta e escritor