Adesão a Bolsonaro nos quartéis reflete distorção do ensino de história nos colégios militares. Por Hildegard Angel

Essa forte adesão dos setores militares, dos recrutas aos generais cinco estrelas, brigadeiros e almirantes, em apoio ao Capitão presidenciável, que cumpriu a carreira no Exército sem qualquer brilho – para ser elogiosa – talvez tenha sua origem nos bancos escolares.

No ano seguinte ao golpe, 1965, foi impressa uma nova cartilha de História do Brasil, para o ensino nas escolas militares, que instruiu cinco gerações de militares, e até hoje vigora.

Seu conteúdo ensina que não houve golpe em 64, houve uma “revolução” para eliminar a “ameaça vermelha” do comunismo, e houve “uma guerra”, em que os militares precisaram praticar a repressão em nome da ordem pública.

Tal versão se tornou obsoleta com a redemocratização e a farta informação colhida através de várias comissões criadas para apurar aqueles fatos, de documentos encontrados, das indiscrições do Wikileaks e também da farta documentação norte-americana, com relatos de diplomatas, vídeos e correspondências oficiais, que classificam como “terrorismo de Estado” a repressão então praticada pelo governo brasileiro.

Uma época em que a propaganda e a mídia nos impunham a ideia que “terroristas” eram, não quem perseguia, mas os perseguidos, obrigados à clandestinidade, capturados e, condenados sem julgamento, torturados e muitas vezes mortos.

Essa versão oficial conveniente, porém fantasiosa, ainda prevalece em grande parcela das Forças Armadas. Imagino que os mais velhos insistam nela por corporativismo, e os mais jovens não ousem contestar os superiores mais antigos. Isso, agravado pela Lei da Anistia, que aos “dois lados” perdoou da mesma forma, contribuindo para perpetuar uma “verdade” distorcida.

Quem quiser se informar sobre o que foram os 20 anos de Estado de Exceção, há uma farta literatura a respeito. Nos sites, sugiro o link https://theintercept.com/2018/09/22/na-ditadura-tudo-era-melhor-entenda-a-maior-fake-news-da-historia-do-brasil/.

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Hildergard Angel, jornalista, viu de perto os horrores da ditadura. Seu irmão foi torturado e assassinado pelo governo dos militares. Sua mãe, Zuzu Angel, estilista famosa, morreu também em circunstâncias misteriosíssimas, em um acidente de carro. Na época, ela fazia um protesto silencioso (era assim) contra a ditadura, com a criação de vestidos que tinha estampas que pareciam saídas do universo de uma criança. Em 1998, a Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos analisou o caso e reconheceu o regime militar como responsável pela morte da estilista. Segundo depoimentos, ela teria sido jogada para fora da pista por um carro pilotado por agentes da repressão. Hoje, o túnel onde ocorreu o acidente é chamado Zuzu Angel.

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