Adoção na passarela: Criança órfã ou abandonada não pode ser tratada como modelo ou gado

No universo da pecuária, é comum a realização de eventos em que vacas e touros de grande porte desfilam para que os potenciais compradores decidam se querem ou não comprá-los.

Ao realizar um desfile com crianças e adolescentes aptos à adoção, num dos maiores shopping centers de Cuiabá, a Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (AMPARA) não tinha, obviamente, a intenção de reproduzir com crianças o que se faz com gado.

Mas o resultado foi o constrangimento, como anotou o advogado Ariel de Castro Alves, membro do Conselho de Direitos Humanos do Estado de São Paulo.

“Constrangedor! Vexatório! Crime previsto no artigo 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente: submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento”, diz ele.

Surpreendente é que o evento teve a parceria da Comissão de Infância e Juventude (CIJ) da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT). E, diante da repercussão do evento, autoridades do Estado saíram em defesa do desfile.

O desembargador Orlando Perri, por exemplo, afirmou que as críticas dirigidas ao evento só mostram a ignorância da população em relação ao processo de adoção no Brasil. Segundo ele, o trabalho que a Ampara realiza é imprescindível, e a presidente da instituição sempre foi apaixonada pela causa.

“As críticas que estão sendo feitas só mostram um profundo desconhecimento da legislação de adoção no Brasil. As pessoas falam como se o evento tivesse tentado vender as crianças, mas isso é absolutamente mentira. A legislação não permite que isso seja feito, e para adotar é necessário fazer um cadastro, e passar por um longo processo burocrático. O evento foi feito somente para chamar atenção para a causa”, afirma.

Tudo certo. Mas há outras formas de chamar a atenção para a causa: crianças e adolescentes devem ser protegidos pelo Estado e não submetidos a uma situação de evidente constrangimento.

Além disso, adoção é ato de amor que não se incentiva com um desfile em shopping center.

Há 25 anos, na revista Veja, fiz uma reportagem sobre crianças que viviam em abrigos da antiga Febem, hoje Fundação Casa. Encontrei casos de dupla rejeição.

Crianças que tinham sido abandonadas pelos pais voltaram aos abrigos por não se adaptarem ao novo lar. Os pais adotivos não diziam, mas era evidente que haviam se arrependido.

Especialistas diziam que ninguém pode adotar por impulso. Não pode ser resultado de um estado emocional: “olha que bonitinha aquela criança, vou adotá-la”.

Os casos de adoção bem-sucedidos que registrei eram resultado de decisões racionais. Os pais adotivos tinham refletido muito antes de colocarem outro ser humano em suas vidas e se dedicarem a ele.

Como fui informado mais tarde, a reportagem, cujo título era “Os filhos de ninguém”, despertou em muitas pessoas a vontade de adotar, e adoções aconteceram.

No caso do desfile em Cuiabá, as pessoas podem ficar estimuladas à adoção, já que as crianças apresentadas são fisicamente bonitas — pelo menos é o que mostra a foto publicada no jornal local.

Mas o que aconteceria se, se depois do desfile, uma criança fosse procurada para adoção e outra não? É uma situação que coloca crianças em uma competição desumana.

E para atrair o interesse, como as meninas ou meninos na passarela devem se comportar? Sorrir? Fazer gracinha?

Não. Por melhor que seja a intenção dos organizadores, adoção não é assunto para passarela, que remete à modelo e à beleza física.

Adoção é assunto do Estado, sim, e também das famílias.

Mas expor crianças como se fossem mercadorias ou animais de estimação ou gado, em shopping, é uma péssima maneira de buscar uma solução para esse drama.

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