Adolescente negro é morto com tiro na nuca 2 meses após ameaça de PM. Por Arthur Stabile


Igor tinha 16 anos e estudava no 1º ano do ensino médio | Foto: Arquivo/Ponte

Publicado originalmente no site Ponte Jornalismo

POR ARTHUR STABILE

Ana Paula Rocha, 44 anos, tem uma pergunta não explicada: “Até quando?”. O questionamento envolve violência policial. A cobradora de transportes públicos não tem uma resposta, mas tem dor no peito. No fundo, o questionamento é feito para trazer à tona sua indignação. Na tarde de quinta-feira (2/4), seu filho, Igor Rocha Ramos, 16, morreu baleado pela PM no Jardim São Savério, zona sul de São Paulo. O tiro o atingiu pelas costas, na nuca.

Era por volta de 13h30 quando Ana pediu que o filho fosse até a padaria comprar um maço de cigarros. A mulher está desde o sábado (28/3) afastada do serviço e em isolamento por ter sido contaminada com o coronavírus, conta. Uma semana depois, enterrou seu filho no cemitério Vila Alpina, na zona leste.

O jovem morreu menos de dez minutos depois de ter saído de sua casa. Não tinha nem sequer chegado onde compraria o cigarro para a mãe. Testemunhas relatam que Igor subia uma travessa quando os PMs anunciaram a abordagem, foi quando o rapaz saiu correndo. A mãe conta que o policial havia ameaçado seu filho de morte anteriormente.

“O Igor tinha me falado que esse policial que o matou ameaçou ele, dizendo que quando colocasse a mão nele, não escaparia mais”, relembra a mãe. De acordo com a mãe, ele havia se ajeitado depois de ter sido internado em 2019 na Fundação Casa por roubar um carro. Ela aponta que esse teria sido o motivo da ameaça.

“Eu trabalhei muitos anos da minha vida para criar meu filho e ele terminar com a vida dele desse jeito, como se não fosse nada”, lamenta, no enterro do jovem. Um grupo de aproximadamente 90 pessoas se despediu do jovem. Um ônibus levou parte do grupo. As pessoas usavam máscaras e estavam distanciadas como prevenção à pandemia de coronavírus.

O aviso do filho sobre a ameaça que recebeu do policial aconteceu há dois meses. “Eu não sei o nome do policial”, diz a mãe. Dali para frente, ele havia diminuído as saídas de casa. Mudou a rotina quando a mãe ficou doente. Saía para comprar o que ela precisava. Eu peguei covid-19, não posso sair. Ele saiu para me fazer um favor, comprar cigarro para mim”, diz a mulher, que apesar da doença segue fumando. No sábado, Ana não recebia abraços de consolo justamente por estar doente.

Segundo a mãe, os policiais disseram para ela no dia da morte que o rapaz havia trocado tiro com eles. No entanto, testemunhas relataram para ela que não havia nenhum armamento com ele. “Ele simplesmente mandou meu filho parar e deu um tiro na cabeça. Um único tiro. Ele caiu de bruços, o rosto está todo machucado, e foram procurar, reviraram o corpo dele gritando ‘cadê a arma? cadê a arma?’. Não tinha arma nenhuma”, afirma Ana Paula.

Vizinhos do local em que o jovem morreu relatam que os próprios policiais que atuaram na ação que vitimou Igor tentaram retirar imagens de câmeras de segurança que registraram a ação nas casas próximas. As tentativas foram duas, contam: primeiro no mesmo dia do crime, mas os donos das casas se recusaram a dar, alegando que entregariam apenas à Corregedoria da PM.

Porém, no dia seguinte, a segunda ação: os moradores afirmam que um grupo de policiais foi ao lugar dizendo ser da Corregedoria e levou as imagens. As pessoas contam que nenhum deles usava boina azul, que integra o uniforme da Corregedoria.

Além de terem pegado as imagens, os policiais ainda ameaçaram e agrediram as pessoas que protestavam logo em seguida à morte do rapaz. Uma familiar de Igor tem marca no braço em que um policial a agarrou para afastá-la do corpo. Até a mãe ficou com marcas: um galo na cabeça e um roxo na perna direita, segundo ela, por violência da tropa.

Igor estudava o primeiro ano do ensino médio na Escola Estadual Doutor Álvaro de Souza Lima, no bairro em que morava. Ainda trabalhava como jovem aprendiz, o que lhe garantia meio salário mínimo por mês.

Além dele, a cobradora têm outras três filhas. Conta que entre os sonhos do garoto estava ter uma moto ou um carro, mas que ainda não tinha claro na cabeça o que queria fazer da vida.

“O que fizeram foi covardia, um assassinato. Até quando vão usar o poder deles para assassinar essas crianças? Se meu filho estivesse errado, eu não estaria pedindo ajuda para os outros”, desabafa a mãe.

Dona Ana pretende lutar para que a vida de Igor não seja esquecida. “Eu vou tirar força de onde eu não tenho, mas eu quero Justiça para o meu filho. Até quando vão ficar fazendo isso?”.

A Ponte questionou a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo, liderada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), sobre as circunstâncias da morte de Igor Rocha Ramos e as denúncias envolvendo a ação policial.

Por meio de nota enviada por sua assessoria de imprensa terceirizada, a InPress, a pasta se limitou a dizer que “que todas as circunstâncias dos fatos são investigadas por meio de Inquérito Policial Militar (IPM) e é acompanhado pela Corregedoria. O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa realizou perícia no local e atua para esclarecer o caso”.

PS: Essa reportagem da Ponte é de abril de 2020. Em junho, a CartaCapital publicou que “Durante a pandemia, PM de SP mata uma pessoa a cada seis horas”, citando o caso de Igor. No mês seguinte, o Estado de S.Paulo informou que o delegado disse que jovem foi executado por policial e ex-PM.

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