Aécio, o “escândalo da Wikipedia” e a “posição independente” da imprensa mineira

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O chamado “Escândalo da Wikipedia” provocou a indignação de Aécio Neves, que classificou a coisa toda como demonstração de “autoritarismo do governo federal”.

Aécio foi muito mais rápido em responder sobre os adendos aos verbetes de Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg do que em dar uma satisfação sobre o aeroporto construído no terreno de seu tio em Cláudio — de resto, alvo de operações da PF por ser um polo de tráfico de drogas, com o envolvimento de seu primo Tancredo Tolentino.

“Eles acham que tudo pode e que são donos da história do país e, agora, da biografia de jornalistas e das pessoas. Eu sou grande vítima desta ação inescrupulosa de setores do governo que buscam alterar a biografia de pessoas que têm posição independente”, afirmou. “Senão está na hora dela [Dilma] mudar slogan de seu governo de um ‘Brasil para todos’ para Brasil de ‘eu não sabia de nada’.”

Seria surpreendente se ele não dissesse algo nesse teor, ok. Mas espera um pouco.

Durante sua gestão, Aécio e sua turma promoveram um arrasa-quarteirão na imprensa mineira. “Posição independente” não é sua especialidade.

Em seu mandato, denúncias foram asfixiadas ou publicadas de maneira tímida, na mais gentil das hipóteses. Não existe crítica na terra de Aécio. Matérias envolvendo amigos e aliados, como os Perrellas, também são apuradas até que um telefonema mande parar. Deu no que deu.

O documentarista Marcelo Baeta reuniu alguns desses casos em “Liberdade, Essa Palavra”, dividido em duas partes no YouTube.

Um exemplo eloquente da prática democrática de Aécio é contado por Marco Nascimento, ex-diretor da Globo em Minas. Marco fala como foi a produção de uma reportagem sobre o tráfico de crack em Lagoinha, bairro de Belo Horizonte.

A matéria foi ao ar no Jornal Nacional. Num primeiro momento, Marco se encontrou com a zelosa Andrea Neves, que se queixou de que aquilo vinha “num mau momento”. De acordo com Marco, ela ligou também para a direção da Globo.

Marco acabou sendo demitido. O mesmo aconteceu com um editor que ousou dar uma nota no “Estado de Minas” sobre uma pesquisa de popularidade em que Aécio aparecia em antepenúltimo lugar entre os governadores.

E, veja, só, com um cronista esportivo que fez uma reportagem “incômoda” sobre Wanderley Luxemburgo no Cruzeiro — presidido por, adivinhe quem, Zezé Perrella. A reportagem foi ao ar no governo Itamar Franco. Zezé, para ser justo, avisou o jornalista que, assim que Aécio assumisse, ele estaria na rua.

Batata. Mas isso não tem nada a ver com autoritarismo, ação inescrupulosa — e ele não sabia de nada, é claro que não.

 

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