Aécio sai da cova, diz que reatou com Huck e tem apoio do povo para ser governador. Por Joaquim de Carvalho

Aécio e sua grande aspiração

Como um personagem de Walking Dead, Aécio Neves ressurgiu hoje na mídia de Minas Gerais, ao ocupar quase dez minutos da programação da rádio Itatiaia para uma entrevista em que a repórter fazia o papel de levantadora e ele, de atacante.

A repórter lembrou que Aécio responde a nove inquéritos e foi flagrado numa gravação pedindo dinheiro para o notório corruptor Joesley Batista. A resposta de Aécio é uma afronta à inteligência alheia:

No que diz respeito aos inquéritos, diz que são doações de campanha, feitas por empresários que “acreditavam no nosso projeto”, e as malas de dinheiro de Joesley, fruto de um empréstimo, entre particulares.

“Eu, como disse, exerço mandatos públicos há mais de trinta anos e no momento em que eu tinha, em relação a essa série de inquéritos, constituir minha defesa, eu não tinha recurso e não me envergonho disso. Na minha vida, eu nunca tive empresas, negócios, nã-nã-nã-, maiores, eu nunca tive essa disponibilidade, e aceitei.”

Aécio mentiu quando disse que os delatores não mencionam contrapartida dele em relação a doações. Na delação da Odebrecht, os executivos contam que, como governador, ele acertou a participação da empresa na construção da Cidade Administrativa, a maior obra do seu governo, antes mesmo da licitação. Como contrapartida, a Odebrecht pagou R$ 5,2 milhões.

O então diretor de infraestrutura da Odebrecht, Benedicto Júnior, contou que fez o acerto numa reunião com o próprio Aécio, em reunião no Palácio das Mangabeiras, residência oficial do governador, no início de 2007.

Aécio também faltou com a verdade em relação aos negócios — o estranho nã-nã-nã certamente é ato falho.

Além de ser dono de emissoras de rádio, inclusive a Jovem Pan de Belo Horizonte, Aécio já se apresentou como sócio do primo Kêdo, em um alambique em Cláudio, onde o senador tem uma fazenda. Sociedade que se tornou incômoda depois que se descobriu que um desembargador nomeado por Aécio negociou com o primo habeas corpus para tirar dois traficantes da cadeia.

Questionado sobre os antigos amigos que se disseram decepcionados com ele, inclusive Luciano Huck, Aécio afirmou que reatou com o apresentador da Globo.

“Em relação ao Luciano, recentemente voltamos a conversar. E tenho certeza de que as declarações que ele eventualmente possa ter dado se deve ao desconhecimento em relação aos fatos”.

Aécio falou de seus planos.

“Você perguntou se eu vou ser candidato a deputado federal. Esta hipótese não existe simplesmente… Até pelo conjunto de compromissos que eu tenho com inúmeros companheiros nossos no Estado”, disse e começou a falar de algumas obras de seu governo.

“O senhor está com um discurso de candidato a governador”, comentou a entrevistadora.

“Não, esse conjunto de forças políticas que estão no nosso entorno é que têm estar re-articuladas. Nós não podemos permitir que Minas Gerais continue nas mãos desse grupo político que demonstrou uma grande incapacidade para enfrentar as questões centrais do Estado.

“Então, só sobraram aí Senado e Governo. O senhor vai se candidatar?”, insiste a jornalista. Bola levantada, Aécio corta:

“Muito provável que sim.”

“Senado ou governo?”, diz a entrevistadora, como numa conversa entre amigos.

“O tempo é que vai dizer e essas conversas com essas pessoas é que vão dizer… Eu digo para você aqui com muita tranquilidade: a reeleição para o Senado é até o caminho natural, em razão da importância que nós termos representantes fortes no Senado Federal defendendo os interesses de Minas Gerais. Mas eu sou parte de um grupo político, de pessoas experientes, corretas e que têm uma enorme disposição de enfrentar a estrutura de poder hoje em Minas Gerais, para que possamos dar a Minas, novamente, o governo que diga a verdade, que faça o que precisa ser feito e o principal: dê resultados para a vida das pessoas.”

A repórter, na melhor parte da entrevista, pergunta se Aécio chora ou tem tomado remédio para depressão, “o que seria natural”, já que de quase presidente da república, “aplaudido como era”,  passou a ser uma pessoa “que passa por isso”. “O senhor, às vezes, acorda e pensa: ‘estou sonhando’, ‘é pesadelo’?”

Aécio, num tom de irritação: “Não, nada disso, Mônica. Com muita serenidade. Eu trabalho todos os dias, inclusive defendendo os interesses de Minas Gerais.”

Mais adiante, disse que tem apoio da população:

“O que eu tenho encontrado por onde eu ando é apoio, é estímulo, para que cada vez mais eu possa reassumir aqui em Minas o papel fundamental para, repito, enfrentar o caos administrativo que tomou conta do Estado.”

Na ultima pergunta, “que não pode deixar de fazer”, a repórter quer saber se ele teme ser condenado.

“De forma nenhuma. Porque eu não cometi qualquer crime. Isso não existe. É o contrário.”

Aécio é um morto-vivo da política, um zumbi que vaga pelo Estado. Tem o direito de ser o que quiser, mas, no futuro, se receber outro mandato popular, fará sentido a frase de um dos mais criativos jornalistas da história da imprensa brasileira, Aparício Torelly, o Barão de Itararé, morto em 1971.

Foi ele quem escreveu: “Se há um idiota no poder, é porque os que o elegeram estão bem representados”.

Os eleitores que deram a Aécio Neves o mandato de senador em 2010, naturalmente, não são idiotas. Aécio terminou o mandato de governador em Minas Gerais com a popularidade em alta, elegeu o sucessor e foi para o Senado.

Aécio era uma farsa, produto de uma poderosa máquina que recompensava empresas de comunicação e jornalistas amigos, e perseguia os poucos que o criticavam.

Deu certo.

Mas agora, se se repetir a farsa, será uma tragédia.

Em 2014, entre Dilma e Aécio, Minas escolheu Dilma e rejeitou o candidato tucano indicado por ele ao governo do Estado, numa demonstração de que já conhecia Aécio.

E quem conhece Aécio não vota em Aécio

Mas ele pensa que é querido pelas massas.

É, com certeza, a sua grande aspiração, que virou pó igual ao viaduto Gaurarapes, cujos pilares eram tão sólidos quanto a história contada pela velha mídia de que fez um bom governo.

O que disse Aécio na entrevista à Itatiaia é algo que se situa entre o cinismo e o delírio.

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