Agora é a vez do britânico The Guardian detonar o ministério do “conspirador” Temer. Por Kiko Nogueira

Atualizado em 15 de maio de 2016 às 20:30

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A essa altura, vai ser muito difícil que Michel Temer e seus apaniguados — incluindo-se aí jornalistas empenhados nas redes sociais em justificar o golpe e, portanto, seu trabalho — consigam reverter o dano que causaram à imagem do Brasil no exterior.

Depois da votação grotesca do impeachment na Câmara e da palhaçada no Senado, o próprio Temer é uma fonte inesgotável de material para o escarnecimento do país.

A foto dos ministros no Palácio do Planalto, na sequência do discurso de despedida de Dilma, é digna dos melhores álbuns de família da máfia siciliana, com o padrino cercado por seus capangas.

A cena das duas entourages, a de Dilma e a de Temer, é emblemática: saem as mulheres e negros e entra o time de rúgbi artrítico do PMDB.

Nem o exasperado Jorge Pontual, da GloboNews, conseguiu esconder seu desânimo diante daquela grotesquerie. O vídeo de seu desabafo viralizou.

Dois dias depois de um editorial do New York Times em defesa de Dilma, o britânico The Guardian publicou um belo artigo do correspondente Jonathan Watts sobre o ministério do interino e o fim da ilusão do Brasil como democracia étnica.

Watts, aliás, chama Temer de conspirador. Por enquanto, quem está fazendo o papelão costumeiro de tentar defender o indefensável são os coxinhas na caixa de comentários. O inglês dos meninos é digno do portunhol do desprezível Michel. Recomendo fortemente.

Eis os principais trechos do texto de Watts:

 

A imagem do Brasil como uma democracia socialmente liberal e multi-étnica pode sempre ter sido mais mito do que realidade, mas ilusões remanescentes desse tipo foram destruídas pelo gabinete totalmente masculino do presidente interino Michel Temer.

Depois de conspirar para derrubar a primeira mulher presidente do Brasil, sua ex-companheira de chapa Dilma Rousseff, o patrício de 75 anos de idade rapidamente mostrou seus instintos conservadores com uma equipe quase toda branca de ministros, que incluía um barão de soja responsável pela agricultura e um ministro das finanças que imediatamente declarou a necessidade de cortes profundos.

Como ficou evidente pela aglomeração de homens brancos em ternos que cercaram o líder sorrindo durante seu discurso de posse, a velha elite do Brasil está novamente no comando – e eles sentem pouca obrigação de representar os 52% da população de mulheres ou os 53% que são de mestiços.

Foi um contraste impressionante com a saída da equipe do governo de Dilma, que era muito mais diversificado em gênero e raça. Temer não perdeu tempo em retornar aos valores tradicionais. 

Assim como muitos manifestantes pró impeachment se enrolaram nas cores nacionais, ele declarou que o lema de seu novo governo seria “ordem e progresso” – o dístico positivista que aparece na bandeira do país.

Progresso, no entanto, não parece incluir melhorias nos direitos das mulheres, que durante muito tempo foram tratadas como cidadãs de segunda classe nessa cultura machista.

Matéria de capa recente da revista Veja — porta-voz da direita conservadora — prestou homenagem a esses ideais, descrevendo a esposa de Temer, Marcela – uma concorrente de concurso de beleza 43 anos mais jovem – como “bela, recatada e do lar”.

Na entrevista, a primeira-dama – que tem o nome do marido tatuado na parte de trás do seu pescoço -, disse que tinha sorte quando ele encontra tempo para levá-la para jantar fora a cada duas semanas.

Rousseff – uma ex-guerrilheira marxista que foi presa com uma arma em sua bolsa e resistiu à tortura durante a ditadura militar, e passou a liderar o país mais poderoso da América Latina – era a antítese da visão da direita de feminilidade.

Em seu discurso de despedida, Rousseff disse que foi vítima de traição e misoginia. Durante a votação turbulenta do impeachment na Câmara, muitos congressistas conservadores e suas esposas e namoradas posaram com cartazes paternalistas dizendo “Tchau, querida”.

O deputado ultraconservador Jair Bolsonaro foi um passo além, dedicando seu voto ao torturador-chefe da ditadura Carlos Alberto Brilhante Ustra, que descreveu sadicamente como “o pavor da Dilma”. Bolsonaro não foi punido. Na direita, ele ganhou popularidade, somando mais de meio milhão de likes no Facebook nas duas semanas que se seguiram.

Rousseff foi destituída depois de perder uma votação preliminar no Senado. Isso se seguiu a uma derrota esmagadora semelhante na Câmara em abril. Ela agora enfrenta um julgamento pelo Senado sob a acusação de maquiar contas do governo para dar uma impressão exageradamente saudável antes da eleição de 2014. 

Ela agora tem apenas uma pequena chance de evitar a remoção permanente do cargo. A votação final do Senado – que requer uma maioria de dois terços – pode ocorrer em setembro.

Muitos de seus acusadores, no entanto, estão sob investigação por crimes muito mais graves. Temer enfrenta um pedido de impeachment e está proibido de concorrer a um cargo elegível por oito anos devido a violações eleitorais. Também foi citado em duas ocasiões na Lava Jato num escândalo de propina na Petrobras. Outros membros de seu governo, incluindo o novo ministro do Planejamento Romero Jucá, também enfrentam acusações dos promotores.

Apesar desses problemas, Temer disse que tinha “confiança absoluta” na sua capacidade para mudar as coisas com a ajuda da população.

“É urgente restaurar a paz e unir o Brasil”, disse.

Enquanto ele falava, pequenas brigas ocorriam do lado de fora do palácio. Os manifestantes foram expulsos por seguranças com cacetes e sprays de pimenta.

Muitos duvidam que um governo totalmente macho e branco possa unir uma das mais etnicamente diversas nações do mundo, sobretudo tendo em conta o seu foco principal será cortar os gastos para atrair o investimento estrangeiro.

Ana Claudia Farranha, única professora mulher e negra em seu departamento na Universidade de Brasília, acha que Temer mostra o quão distante está da população.

“Parece que estamos dando um passo para trás”, acredita. “Eles dizem que querem construir uma ‘ponte para o futuro’, mas não é uma coligação com a sociedade. É uma facção hegemônica dentro de um bloco político. Esse arranjo dá a seu governo uma carga de fragilidade.” (…)

Os grupos indígenas, que sofrem sob cada governo há mais de 500 anos, dizem que a diferença é notável.

“Dilma não era perfeita, mas pelo menos ela nos deu uma voz”, diz Edinaldo Arágun, um chefe do povo Tabajara da Paraíba. Eles se juntaram à manifestação que acompanhou a despedida de Rousseff. “O novo governo será muito pior. Eles são criminosos e ladrões que vão levar a nossa terra, como as pessoas têm feito há centenas de anos”.