AI-5 nos olhos dos outros é refresco. Por Roberto De Martin

Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Não me lembro de na época do Fernando Henrique Cardoso, ou de qualquer outro presidente pós-88, algum ministro invocar o AI-5 como resposta a um suposto ataque à democracia.

O que vivemos é novo, pela existência da internet, e velho, pelo apelo ao combate ao “inimigo” “comunista”, nos moldes de 1964.

De forma totalmente antidemocrática, Paulo Guedes, mas também Abraham Weintraub e outros bolsonaristas, abusam da liberdade de expressão própria à democracia para invocar os porões da ditadura e espalhar notícias falsas, recheadas de vontade fascista, de erradicação de um mal que não existe, a não ser em suas mentes de “irracionalidade aplicada”.

Tentam, assim, inverter a lógica do sofrimento social.

Em dez meses de governo, aprovaram uma reforma da Previdência que é inconstitucional, atacaram as leis trabalhistas, os conselhos populares, desmataram mais do que nunca, enviaram ao Congresso um pacote de leis que estimula a matança dos mais vulneráveis, e quem prega a violência é o Lula?

A culpa é do povo, que se revolta com tantos desmandos?

O excesso de imagens e vídeos compartilhados nas redes, sem qualquer filtro por parte dos Mark Zuckerbergs correspondentes, produz na cabeça dos receptores uma certeza equivocada, apoiada em preconceitos e pós-verdades, pré e pós-chanceladas por facebook, Twitter e afins.

Ao contrário do que deveriam fazer, não criam mecanismos de defesa da ordem democrática contra fake news e discursos de ódio.

Como disse outro dia o ator e comediante britânico Sacha Baron Cohen, se Hitler vivesse nesse nosso mundo atual, teria a oportunidade de publicar no Facebook, e impulsionar, vídeos de 30 segundos de propaganda nazista.

“Se você pagar, o Facebook transmitirá toda a publicidade ‘política’ que você quiser, mesmo que contenham mentiras”, disse em evento da organização de luta contra o antissemitismo ADL (Liga Anti-Difamação), realizado em Nova York.

A democracia agoniza.

Parafraseando Theodor W. Adorno, no fascismo não há argumentos racionais, apenas ideias baseadas em mera similaridade, logicamente desconexas, numa espécie de irracionalidade aplicada.

Ou seja, em nossa sociedade, capitalista e permissiva em relação aos “valores” fascistas, a neurose – e até mesmo a loucura moderada – são transformadas em mercadoria, “que o doente pode facilmente vender, bastando que ele descubra que muitos outros têm uma afinidade”.

 

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