Alckmin perdeu a guerra com os estudantes por viver fora da realidade. Por Mauro Donato

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O número de escolas técnicas (ETECs) ocupadas por estudantes só aumenta. Já são 15 unidades, mais três escolas estaduais e duas diretorias de ensino. Se o movimento atingirá a dimensão das ocupações de escolas estaduais ocorridas no ano passado, quando mais de 200 escolas estiveram envolvidas, é uma incógnita. O certo é que há algumas diferenças relevantes e também a experiência adquirida pelo governo no ano passado, a ponto de elaborar uma estratégia diferente para lidar com a situação atual. A principal diferença que embaralha o comparativo é que há muito menos ETECs que escolas de ensino fundamental e médio em todo o estado.

Com relação à maneira como o governo Geraldo Alckmin está administrando a crise é que mudou radicalmente. Não mais pego de surpresa, o governo tem orientado que as ocupações sejam tratadas individualmente, na tentativa de impedir que o movimento ganhe corpo e unidade. Para tanto, o Centro Paula Souza (desocupado há quatro dias) tem feito um trabalho junto às diretorias de cada ETEC, conclamando sobretudo alunos do período noturno contrários ao movimento para que exerçam pressão e desgaste nas ocupações. Vale tudo: ameaças, agressões, invasões na força bruta. Na ETEC Basilides de Godoy (Vila Leopoldina) o clima é de terrorismo.

Os alunos do período noturno comumente são bem mais velhos e encorpados que os jovens que estudam no integral. A intimidação é forte mas os estudantes têm resistido o quanto podem. A reportagem do DCM esteve na ETESP do Bom Retiro na noite de 3 de maio e flagrou a entrada forçada de três alunos na ocupação. O bate boca foi áspero e inócuo: não havia professores, a unidade está ocupada, sem aulas. A entrada foi mera provocação de atrito.

“Os alunos do noturno não sabem do que se trata, nem sabem o que é a máfia da merenda, não sabem da existência do pedido de CPI, mas ficam contra por causa da falta de informação. É gente que já trabalha e só pensa em si mesmo”, disse Rafaela Carvalho da ETEC Getulio Vargas, no Ipiranga, cuja ocupação durou apenas um dia diante da agressividade dos contrários.

A própria polícia tem atuado. Na ETESP, uma viatura fica parada dentro do campus e policiais pedem identificação de todos e por vezes resolvem que ninguém mais pode entrar. O dia das mães de alguns ocupantes foi dividido pelas grades: familiares na calçada, alunos do lado de dentro.

A estratégia repressora funciona? “Há perseguições contra estudantes desde o ano passado e muita gente fica com medo mesmo”, afirmou um estudante que pediu para não ter o nome divulgado.

Até Geraldo Alckmin está atuando de forma direta. No domingo, o governador esteve em Paraisópolis, onde fica a ETEC Abdias Nascimento. Contando com a ajuda de um líder comunitário, pediu que alguns estudantes fossem chamados até uma padaria. Lá, prometeu que melhorias seriam feitas desde que a desocupação fosse imediata. Segundo alunos, Alckmin também esteve conversando com comerciantes e moradores da comunidade, alertando para o prejuízo que a ocupação causaria a eles.

Recapitulando: o governador foi até uma padaria vizinha mas não foi à escola. E depois alega estar aberto ao diálogo. A resposta de seu governo até agora foi prometer marmita a partir do mês de agosto.

Sem acreditar em promessas e cansados das manobras do governador, os estudantes foram às ruas novamente hoje. O dia já era de paralisação geral. Trancaços em diversos pontos da cidade e em vários estados país afora. Os estudantes não deixaram por menos. Saíram da estação da Luz e passaram em frente a três ETECs e ainda no Centro Paula Souza. Os alunos retirados à força pela Tropa de Choque na sexta-feira fizeram um cordão em frente ao portão para dar o recado de que não têm medo de repressão e que a luta continua. Até porque a lista inclui a investigação e punição dos culpados pelo escândalo da merenda superfaturada, a fim da reorganização camuflada com o fechamento de turmas e melhores condições de trabalho para os professores.

O governo Alckmin busca deslegitimar as reivindicações dos jovens a todo custo. Diz estranhar que ocupações não ocorram nas federais (se a máfia da merenda atua nas estaduais, seria um pouco estranho, não?); Afirma ser um movimento unicamente político, que os jovens estão sendo manipulados por movimentos sociais (primeiro: o que não é política? Segundo: como pode se queixar de ser um movimento liderado por alguém e depois reclamar que não sabe com quem tratar por ser um movimento horizontal?).

Se o governador tivesse um contato um pouco mais aprofundado com a realidade, saberia que a iniciativa é majoritariamente autônoma e que todo e qualquer político é visto com reservas pelos jovens. Mesmo Eduardo Suplicy, Luiza Erundina e Carlos Giannazi, que estiveram no CPS na semana passada para prestar ajuda para retirar a PM que havia invadido a ocupação sem mandado judicial, receberam tratamento gélido. É desinformação ou má fé afirmar que os jovens têm motivação política. Governador, é falta de merenda. Se seu filho estiver com fome, dirá a ele que ele está sendo político e pedirá que aguarde até agosto?

 

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