Além de Vorcaro: conheça a “mente” por trás da ascensão do Banco Master no mercado financeiro

Atualizado em 7 de abril de 2026 às 11:50
Fachada do Banco Master em SP. Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo

Benjamim Botelho de Almeida aparece no centro da engrenagem financeira que sustentou parte dos negócios mais nebulosos do Banco Master e de Daniel Vorcaro, segundo documentos da Polícia Federal e informações reveladas sobre a Operação Compliance Zero.

Discreto no estilo de vida, longe da ostentação pública do banqueiro, o dono da Sefer Investimentos é apontado como a mente por trás da estrutura de fundos, operações com títulos de origem duvidosa, captação de recursos de pensionistas e transações que ajudaram a inflar ativos ligados ao ecossistema do banco.

Segundo o Estadão, a investigação indica que sua atuação acompanha Vorcaro desde antes da criação do Master, ainda nos tempos do antigo banco Máxima.

Nas milhares de páginas da investigação, Botelho surge como operador de Vorcaro e de familiares desde 2019. A Polícia Federal afirma que a “grande maioria das operações suspeitas” da família Vorcaro “envolve também as empresas de Benjamim Botelho”.

Entre elas, segundo os investigadores, estão “compra e venda de fundos imobiliários, debêntures e outros títulos de origem duvidosa, constituição de empresas de fachada e conflitos de interesses entre empresas da mesma família”. A leitura dos investigadores é que Botelho não apenas orbitava o esquema, mas exercia papel estruturante na modelagem financeira que dava aparência de legalidade às operações.

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Foto: reprodução

A Sefer, gestora fundada por Botelho, administra hoje 102 fundos com patrimônio superior a R$ 20 bilhões. Desse total, pelo menos R$ 9,6 bilhões mantêm algum tipo de relação com o ecossistema do Master. Segundo a PF, fundos administrados pela empresa compravam imóveis e outros ativos duvidosos, elevavam artificialmente seus preços e depois revendiam esses bens a empresas de Vorcaro e de familiares.

O resultado, de acordo com a investigação, era uma dinâmica em que ambos ganhavam, enquanto investidores, inclusive fundos de pensão, acumulavam prejuízos. Um dos casos citados envolve um terreno em Aracaju cercado de dúvidas jurídicas, usado em operações que teriam causado perdas milionárias e, mais tarde, ajudado a capitalizar o próprio Master.

As digitais de Botelho também aparecem em outra frente decisiva: a ligação entre Vorcaro e a Fictor, empresa que anunciou a compra do Master na véspera da liquidação do banco pelo Banco Central.

Segundo a apuração, uma transação de mais de R$ 500 milhões envolvendo precatórios da Titan Holding, braço patrimonial de Vorcaro, passou por um fundo administrado pela Sefer, e o pagamento seria feito em conta da empresa de Botelho. Depois, na recuperação judicial da Fictor, a Sefer apareceu listada como uma das principais credoras, embora os documentos apontem que o verdadeiro credor por trás da operação seria uma holding de Vorcaro nas Ilhas Cayman.

A rede empresarial ligada a Botelho se espalha por Portugal, Suíça e Delaware, nos Estados Unidos, e reforça o peso de sua atuação nas apurações. A Sefer afirma que as operações são regulares e que “todas as operações observam rigorosamente a legislação do mercado de capitais, os regulamentos dos respectivos fundos, bem como as normas emanadas dos órgãos reguladores e autorreguladores, sendo lícitas, regulares e pautadas por critérios técnicos e de mercado”.

Também declarou reafirmar “seu compromisso com a legalidade, a transparência regulatória e o cumprimento integral de seus deveres fiduciários”. Mesmo assim, a investigação da PF coloca Benjamim Botelho como peça-chave para entender como o Banco Master estruturou parte de seus crimes financeiros.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.