Alguém ainda tem qualquer dúvida de que a torcida do Grêmio é racista?

Aranha
Aranha

 

Se alguém tinha dúvida se o racismo da torcida do Grêmio não se restringia a meia dúzia de imbecis, ela foi dizimada na partida de ontem contra o Santos.

O estádio em peso vaiou Aranha do aquecimento ao fim. De um jeito, vamos dizer, especial.

Espertos gritavam “Branca de Neve” (risos) e “alemão” (risos?). Outros gênios tapavam a boca para poder xingá-lo de sabe-se lá o que sem ser flagrados pelas câmeras.

Não se trata de proibir a vaia no futebol. Não é mimimi.

O que se viu ali foi de outra natureza. Uma perseguição absurda a um sujeito que ousou indignar-se com calhordas que acham normal falar que um negro é macaco.

Ok, o irracional manda nas arquibancadas. Mas, no segundo confronto entre as duas equipes, a cambada fez o extremo oposto de qualquer atitude próxima de honrar seu clube.

Aranha, mais uma vez, saiu-se com hombridade. Jogou com frieza, fez algumas boas defesas (0 a 0), não caiu em provocações, não provocou.

No intervalo, afirmou que o que estava ocorrendo era “triste”. “Se tiver que dar desculpas para esse povo, não dou”, falou. É o antiPelé, tanto na capacidade de articulação quanto na coragem.

Ele voltaria ao ponto no final. Cercado por repórteres, teve uma breve discussão com dois deles.

“Fiquei triste. Deu para perceber bem qual o pensamento da torcida gremista. A grande maioria apoiou [a palhaçada de vinte dias atrás]. Tinha muita gente contra minha atitude. Não ligo para vaias, para manifestação do torcedor, desde que seja do esporte. E a gente, sem ser hipócrita, sabe que a vaia hoje foi diferente”, declarou.

A dupla quis saber o que significava o “diferente”. É uma pergunta, na melhor das hipóteses, burra. Na pior, cínica.

Sem se exaltar, foi didático. “Foi diferente por tudo o que aconteceu. Você concorda? Nunca me senti tão mal jogando em um lugar como me senti hoje. Cobraram o perdão, mas não tem como perdoar um pessoal desse. Sinceramente esperava ser recebido de outra maneira, porque acreditava que a grande maioria do torcedor gremista tinha repudiado [o ato racista]. Mas, pelo que vi hoje, eles concordam”.

Sim, eles concordam. Quem acreditou na balela de que o racismo do primeiro confronto no RS foi “um ato isolado” merece um pacote de bombachas.

Aranha deu uma lição — inútil, provavelmente, para as pessoas que se deram ao trabalho de se deslocar até a Arena para tentar colocá-lo em seu devido lugar. É preciso registrar a contribuição do técnico Felipão, sempre capaz de uma besteira maior que a anterior, que acusou o goleiro de “encenação”.

O “preto safado”, o “preto fedido” não tinha o direito de expor uma doença coletiva dessa maneira. De dar visibilidade nacional a uma aberração entranhada há décadas, disfarçada sob um papo furado subantropológico. “Macaco é como nos referimos aos colorados desde 1540 blabblablá”.

Em 90 minutos, Aranha fez mais contra o racismo no futebol brasileiro do que toneladas de videocassetes educativos da FIFA. Com o auxílio impagável, fundamental da escumalha que tentou agredi-lo covardemente e saiu humilhada. De novo.

 

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