Aliados de Flávio Bolsonaro precisam apelar por apoio de Michelle; entenda

Atualizado em 8 de abril de 2026 às 8:09
Michelle e Flávio Bolsonaro. Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

A resistência da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro em se engajar na pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a causar incômodo crescente entre aliados e integrantes do PL diretamente envolvidos na tentativa de consolidar seu nome para 2026.

Nos bastidores, segundo o Globo, a ausência da ex-primeira-dama em eventos, agendas públicas e divulgações da campanha é tratada como um problema político real, sobretudo porque ela é vista como peça importante para aproximar Flávio de mulheres e evangélicos, dois segmentos considerados decisivos na disputa pelo Palácio do Planalto.

Desde que Flávio se lançou como candidato, Michelle tem evitado subir no mesmo palanque do enteado e também não vem promovendo atos ligados à pré-campanha.

Interlocutores da ex-primeira-dama afirmam que a prioridade dela neste momento é a saúde de Jair Bolsonaro, mas no núcleo político do senador a leitura é de que a recusa amplia a sensação de distanciamento dentro da própria família. O temor é que essa postura acabe expondo ainda mais as fraturas internas do bolsonarismo em uma eleição que tende a ser polarizada e decidida por margem apertada.

A avaliação de aliados de Flávio é que Michelle poderia ajudar o senador a ganhar tração em públicos nos quais Ronaldo Caiado também tenta avançar dentro da direita. Por isso, lideranças do partido vêm tentando convencê-la a participar mais ativamente da campanha, sem sucesso até agora. Nas conversas reservadas, porém, Michelle mantém queixas sobre o comportamento dos enteados, o que ajuda a alimentar a percepção de que o impasse é político, mas também pessoal.

Uma liderança evangélica ouvida sob reserva resumiu o clima dizendo que Michelle tem “mágoa por não ter sido escolhida vice” de Tarcísio de Freitas em uma composição presidencial cogitada nos bastidores. Outro integrante da tropa de choque bolsonarista no Congresso foi ainda mais direto ao descrever o ambiente familiar: “A relação de Michelle com os filhos sempre foi difícil. Eles se odeiam. É a disputa pelo espólio político de alguém que ainda não morreu”.

Os atritos recentes reforçaram esse cenário. Michelle repostou no Instagram um vídeo do senador Esperidião Amin no Dia Mundial de Conscientização do Autismo, gesto interpretado nos bastidores como provocação a Carlos Bolsonaro, adversário de Amin na disputa pelo Senado.

Publicação de Esperidião Amin compartilhada por Michelle. Foto: reprodução

Também gerou desconforto o fato de um assessor da ex-primeira-dama, André Costa, ter republicado uma pesquisa mostrando alta rejeição a Flávio e, em outro momento, um vídeo do pastor Silas Malafaia defendendo Tarcísio para o Planalto.

Um integrante do PL criticou essa postura: “Alguém que faz tantas menções a Deus e tem tantas pautas religiosas deveria abraçar a todos, mas não é o que Michelle faz. Ela não abraça a candidatura do Flávio, não congrega, em pleno momento de fragilidade do marido”.

A tensão também ficou explícita no episódio envolvendo a aliança do PL do Ceará com Ciro Gomes. Michelle atacou publicamente a articulação e declarou: “Adoro o André, passei em todos os estados falando dele, do [deputado estadual] Carmelo Neto e da esposa dele, que foi eleita. Tenho orgulho de vocês, mas fazer aliança com o homem que é contra o maior líder da direita, isso não dá. Nós vamos nos levantar e trabalhar para eleger o Girão”.

Em seguida, completou: “Essa aliança vocês se precipitaram em fazer”. Flávio reagiu e acusou a madrasta de ter sido “autoritária”, mas depois se desculpou. Ainda assim, segundo o relato, Michelle continua magoada e não abre mão de um pedido público de desculpas.

Aliados da ex-primeira-dama insistem que o foco dela hoje é outro: cuidar da saúde de Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar e necessita de supervisão permanente. Uma amiga de Michelle resumiu essa prioridade de forma direta: “Ela prometeu ao Moraes que cuidaria do Bolsonaro. Ela não vai fazer nada para o Flávio nessa pré-campanha”.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.