Alinhamento automático fracassa mais uma vez. Por Rodrigo Luis Veloso

O presidente Jair Bolsonaro e o presidente dos EUA Donald Trump fazem declaração à imprensa durante conferência na Casa Branca, em Washington — Foto: Brendan Smialowski/AFP

POR RODRIGO LUIS VELOSO

Na história das relações internacionais, o Brasil experimentou vários momentos de “alinhamento automático”. Política que significa que o governo local adere a todas as determinações da geopolítica dos EUA em troca de uma promessa de relacionamento especial.

Em 1946, com a posse do general Dutra, o país assinou o TIAR (tratado de franca cooperação com os americanos), tomou a posição de não reconhecer a República Popular da China e suspendeu as relações diplomáticas com a União Soviética.

Naquele momento, como acontece agora quando o ministro Ernesto Araújo apoia o bloqueio a Cuba, corta relações com a Venezuela e transfere a embaixada em Israel, a chancelaria acreditava que o comportamento “exemplar” diante de um parceiro que era o país mais rico do mundo traria como consequência uma entrada diferenciada de investimentos, e que as medidas tornariam o Brasil um parceiro estratégico no cenário global.

Em vez disso, o que ocorreu após as decisões de Dutra foi que os prometidos investimentos que recompensariam a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados e mais as posições anti-soviéticas acabaram não se realizando. Noves fora declarações oficiais, a visita do presidente Truman e elogios de ambas as partes, nunca chegou ao Brasil o volume de investimentos que se imaginava, e em contraposição a chegada ao poder de mais aliados dos soviéticos em outros países fechou outros mercados importantes para os produtores brasileiros.

Levou anos até que, pressionado pelas elites locais, que eram mais pragmáticas na busca de clientes para seus produtos, o governo brasileiro decidisse desvincular sua estratégia em política externa dos interesses dos EUA, e passasse a negociar novamente ponto a ponto seus passos com relação ao restante do mundo. O momento áureo do desfazimento do então “alinhamento automático” foi a retomada das relações com a China – justamente o país que é hoje o principal parceiro comercial do Brasil.

A história ilustra que não é novidade a família do presidente brasileiro se vestir com as cores da bandeira americana para jogar no Brasil com a falsa impressão de que os eleitores poderão escolher entre o estilo de vida de Nova Iorque ou o de Cuba. E que as relações pragmáticas não nasceram do desejo de adular regimes, mas de desatrelar os interesses do Brasil de uma orientação específica, considerando a pluralidade de matizes ideológicas entre os governos do mundo.

Quando Trump anuncia sobretaxas aos produtos brasileiros, em um gesto forte – e ilegal para Organização Mundial do Comércio (OMC) – apesar dos filhos de Bolsonaro usarem chapéu com seu slogan de campanha, fica evidente que o Brasil colhe o mesmo fracasso experimentado das vezes anteriores que se tentou alinhamento automático. Fica nítido que o chanceler Araújo, que sempre desprezou a diplomacia profissional do Itamaraty, acusando-a de marxismo cultural, perdeu a chance de ouvir bons especialistas a fim de evitar o constrangimento que é ver suas ideias serem enterradas pelas manchetes dos jornais.

Todo tempo perdido com baboseiras que buscaram transformar as relações realistas entre os países em marketing eleitoral atrasou o Brasil e deteriorou a imagem do Estado diante dos negociadores internacionais, passando a impressão de amadorismo, instabilidade e despreparo. A bem da melhora dos resultados no Ministério das Relações Exteriores, o ministro Araújo deveria pedir sua demissão.

*Rodrigo Luis Veloso é mestrando em sociologia pela Universidade Federal Fluminense

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