Alô, bolsonarista: ser comunista não é infração, colocar faixas sim. Por Mauro Donato

“Comunista, está chegando a sua hora”. Foto: Mauro Donato

Faixas instaladas pela zona sul da cidade estampam em tom ameaçador: “Comunista, está chegando sua hora!”

Acredito ser necessário fazer uma observação aos mentores da ilustre campanha, bem como aos instaladores: Votar em comunista ou mesmo ser adepto do comunismo não é crime. Não é nem mesmo infração. Pendurar faixas é.

O exemplo acima se enquadra em pelo menos dois artigos da lei 14223 (a famosa lei Cidade Limpa) que está em vigor desde janeiro de 2007. Pelo artigo 9 parágrafo IV:

É proibida a instalação de anúncios em  postes de iluminação pública ou de rede de telefonia”; E pelo artigo 15 paragrafo único: “Não serão permitidos, nos imóveis edificados, públicos ou privados, a colocação de banners, faixas ou qualquer outro elemento, dentro ou fora do lote, visando chamar a atenção da população para ofertas, produtos ou informações que não aquelas estabelecidas nesta lei.

E então, prefeito Bruno Covas, vai ficar olhando a lei ser violada? Também está na lei que compete à prefeitura fiscalizar, multar e remover as faixas.

Ninguém ‘assina’ as mensagens anti-comunistas. É mais um daqueles casos que quer se passar por ‘sociedade civil’, como uma ‘indignação apartidária’. Sabe a conversa do MBL lá em 2014? Então, isso aí.

Estar sem uma identificação dificulta um pouco a denúncia que o cidadão pode fazer diretamente ao TRE nos casos de propaganda eleitoral irregular (ao denunciar, é preciso se identificar e descrever a infraçãoo local e o candidato ou partido que favorecido. Isso tudo pode ser feito inclusive por celular através do aplicativo Pardal, lançado pelo TSE). Mas como estamos falando de São Paulo, as faixas infringem a lei, portanto basta acionar o número 156 para solicitar a remoção ou dirigir-se às sedes das Prefeituras Regionais.

Serviço dado, voltemos à vaca fria.

O teor nitidamente beligerante e ameaçador oferecemotivos de sobra para suspeitarmos de quem esses anônimos são simpatizantes.

Para começar, um dado: pelo último Ibope, em São Paulo o coiso vence Haddad por 33 a 12 (diferença de 21 pontos enquanto no quadro geral do país a vantagem é de apenas 6 – e caindo).

O eleitor do inominável está majoritariamente situado entre os mais escolarizados e os mais ricos. Para contratar a confecção e instalação de faixas é preciso dinheiro, taok?

O capitão reformado é um franco difusor de desrespeito a todos e a tudo, leis inclusive. Bolsonaro é campeão em denúncias por instalar outdoors irregulares no Paraná, por exemplo. E o ‘Faça o que eu digo, não faça o que eu faço’ é característica indissociável de seus seguidores, da elite, dos hipócritas de plantão.

A turma que ingere bebidas alcoólicas e depois sai dirigindo, que estaciona sobre a faixa de pedestre, quetrafega sobre as faixas de ônibus e ciclovias, que em privado sonega impostos e em público reclama do peso destes. O coiso, admitamos, pelo menos é sincero. Já declarou em frente as câmeras: “Sonego tudo”.

A ética do cidadão de bem que não respeita nada é um espelho dupla-face das infinitas manifestações de desprezopelas instituições democráticas de direito que o ‘mito’ já concedeu. Se ele diz – e faz – seus seguidores veneram-no. Parecem ver nele a chance de finalmente poder assumir seus costumes imorais sem a ‘encheção de saco’ da turma dos direitos humanos, dos direitos todos enfim. Essa turma que aplaudiu quando um PM agrediu uma militante do PSOL que estava panfletando santinhos em uma barca Rio-Niterói, mas que não se recrimina ao utilizar de meios ilícitos para obter e manter suas vantagens. Esse negócio de seguir lei é para a ralé.

É a turma da elite que se diz contra o aborto porque pode pagar clínicas clandestinas (para suas amantes idem) sem se preocupar com o efeito dessa proibição nas classes menos favorecidas. O pessoal que defende a criança nasça,ao mesmo tempo em que prega a redução da maioridade penal.

Uma galera que tem a revista Veja como oráculo, pois compactua com o ‘hábito’ de demitir seus funcionários sem pagar os 40% da multa do FGTS (sim, os donos da Abril, cuja fortuna é avaliada em R$ 10 bilhões pela revista Forbes, não apenas fizeram isso com os 800 funcionários que colocaram no olho da rua como não incluíram as verbas rescisórias no processo de recuperação judicial). Quem não se lembra dos descamisados amigos de lancha da filha de Roberto Jefferson, questionando “Quem não tem uma ação trabalhista”? Bom, eu não tenho, vale?

A polarização já se encontra em um patamar no qual a frase ‘sua hora vai chegar’ não tem dois sentidos. A probabilidade de caos após as eleições não é devaneio barato e esse tipo de ameaça pendurada em postes não pode ser menosprezada nem ignorada. Lembremos Marielle Franco para entender do que essa turma é capaz,lembremos do ataque à organizadora do grupo Mulheres Contra Bolsonaro nesta terça-feira, dos relatos de quem vem sofrendo ameaças por postar o #elenão (a cantora Marília Mendonça divulgou no Twitter que sua mãe está sendo atacada). E revoltemo-nos contra o filho do Bozo, que postou uma foto-recado em seu Instagram, de um homem com um saco plástico na cabeça, ensanguentado e tem a referida hashtag escrita no peito. Dá para brincar com gente assim?

O subtítulo da faixa (‘Não acredite nas pesquisas’) é estímulo para a revolta de uma parcela de abilolados quejá desconfia das urnas, que não está aceitando a afirmação da Polícia Federal de que Adélio Bispo tenha agido sozinho. Uma gente que, entre outras características, concorda com linchamentos, que anseia viver num primitivo estado no qual conflitos entre em cidadãos são resolvidos à bala. E não estamos falando de meia dúzia de pessoas. O coiso escancarou um armário do qual saíram milhões.

São os pais de família que saem com travestis e trans que ameaçam de morte uma delas que sugeriu desmascará-los. São os santos do pau-oco, os patrulheiros dos costumes alheios que não respeitam leis e, portanto, não vão respeitar o resultado das urnas (a não ser que sejam os vencedores).

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