Alunos e professores relatam o que mudou com o governo Bolsonaro. Por Caroline Oliveira, André Zanardo e Daniel Caseiro

Protesto na Paulista contra Bolsonaro. Foto: Pedro Zambarda/DCM

Publicado originalmente no site Justificando

POR CAROLINE OLIVEIRA, ANDRÉ ZANARDO E DANIEL CASEIRO

“Idiotas úteis” e “massa de manobra”. Foi assim que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) se referiu aos manifestantes que protestaram nesta quarta-feira (15), em cerca de 200 cidades do País, contra o contingenciamento de recursos destinados à educação brasileira. No total, o bloqueio é de R$ 1,7 bilhão num rol de 63 universidades e dos 38 institutos federais de ensino. Segundo o ministro da Educação Abraham Weintraub, a medida foi aplicada sobre gastos não obrigatórios, tais como água, luz, terceirizados, obras, equipamentos e realização de pesquisas. Assistência estudantil e pagamento de salários e aposentadorias não sofreram impacto.

Desde o início do mandato de Bolsonaro, há quatro meses e meio, mudanças na rotina de professores e estudantes têm ocorrido, conforme relatado ao Justificando por manifestantes durante o ato em São Paulo. Tatiana Amorim, 39, professora do primeiro ao quarto ano do ensino fundamental da rede pública, afirmou que “a situação do dia a dia está piorando recentemente”. “A gente já trabalha numa situação sucateada, com uma quantidade de alunos muito grande em sala de aula. Tem escola, como CEUS (Centros Educacionais Unificados), que passaram de 60 funcionários de limpeza para 14. A escola já sofre com falta de papel higiênico, falta de lixo nos banheiros”, diz Amorim.

Tais mudanças de rotina não se restringem à rede pública de ensino. J.S., 37, professor de sociologia em um dos colégios particulares mais tradicionais de São Paulo, relata uma grande diferença na liberdade dos professores em sala de aula. “Outro dia, estávamos discutindo o conceito de ética segundo Kant e um aluno perguntou se uma determinada atitude do presidente era ética ou não. Tive medo de responder”, relata, explicando que todos os professores foram orientados pela diretoria a não discutir política em sala aula. “Acabei respondendo porque foi o aluno quem trouxe o assunto”, conta o professor. J.S., que pediu que nem ele nem o colégio onde trabalha fossem identificados, confessa que, mais do que uma eventual retaliação por parte da diretoria, teme a reclamações dos pais dos alunos. “Quase todos os meus alunos são filhos de uma elite econômica que votou em peso no atual presidente. Eles não gostam de ter suas opiniões desautorizadas”, conclui.

As mudanças também foram sentidas pela professora do Ensino Médio Nadijane Paula. Nesses quatro meses e meio de mandato de Bolsonaro, Paula afirma que não é possível tratar alguns assuntos dentro da sala de aula “porque os alunos acham que se trata de doutrinação ideológica. Então a gente fica com receio do que tratar e a forma que os alunos irão compreender”. Para ela, a mídia tem um peso muito maior do que o professor. Não tem como ficar 45 minutos falando sobre conceitos filosóficos e o aluno achar que queremos mudar a mentalidade dele, de vida, contra o governo, ou coisa do tipo”. No entanto, a educação não foi a única pauta retratada nas manifestações de ontem. Ainda que em peso menor, os manifestantes também se posicionaram contra a Reforma da Previdência e contra o governo Bolsonaro em si. “Eu estou aqui porque acredito que a paralisação é uma forma de mostrar aos governantes que não estamos satisfeitos com as reformas recentes”.

Andreza Baião, 19, estudante de ciências sociais da PUC-Campinas, relatou que após a eleição de Bolsonaro, assuntos até então intocáveis pelos alunos em sala de aula começaram a surgir. “Eu vejo isto na minha sala, às vezes sentimos a necessidade de parar a matéria e discutir alguns assuntos que se tornaram essenciais.” Bolsista, Baião tem medo de perder a bolsa e precisar deixar a graduação de lado.

As colegas de curso de Andreza Baião, Paula Xavier e Marina Macedo, disseram que a principal mudança nos últimos meses se deu nos relacionamentos com os amigos e na relação entre professor e aluno. Para Xavier, 18, “as pessoas perderam o medo de agredir umas às outras, elas se espelham no presidente deles. Os alunos passaram a se impor muito mais sobre os professores. Agressões verbais e físicas começaram a acontecer nas salas de aula”. Segundo Macedo, 19, “quem já era amigo e tinha o mesmo pensamento se aproximou mais, e quem tinha pensamento diferente se afastou. Nós sentimos muito uma polarização”.

Esse sentimento de intolerância também foi sentido pela professora de psicologia e colunista da Folha de S. Paulo Vera Iaconelli. “Tem uma intolerância no ar que está afetando muito as pessoas: o clima de resolver os problemas na base do tiro. É a loucura generalizada, é uma visão não inclusiva da sociedade brasileira.” Na mesma linha, o professor e pesquisador Fernando Catalan, afirma que, nesse clima de intolerância, deixou de “bater de frente” com os amigos bolsonaristas. “É um equívoco histórico e tenho certeza que eles reconhecerão isso mais pra frente. Eles vão reconhecer que votaram mal por causa de ódio e desse antipetismo generalizado. É lógico que o PT pavimentou o caminho para essa gente, não tem como negar alguns casos de corrupção, a condução da economia foi desastrosa, mas mesmo assim eu ainda acho que o ódio não é o melhor conselheiro”.

Apesar da multiplicidade de críticas ao governo, o contingenciamento de 30% dos recursos da educação foi a principal pauta entre os manifestantes, dominando os cartazes e gritos de ordem durante o ato. Para Eliseu Guilherme, 20, estudante de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), este é apenas o primeiro corte. “Acho que os efeitos piores estão por vir ainda, por isso a importância desse movimento desde já, para não deixar a coisa piorar, para marcar o movimento popular e estudantil.” No ambiente da universidade, Guilherme relata que percebeu uma mudança entre os alunos e professores. “A gente sente que tem aquela preocupação com o futuro da educação. Esse governo só está no começo”.

A preocupação com o futuro é também o que motivou Henrique Vital, 19, a comparecer ao ato. “Nunca tinha ido em manifestação política, essa foi a primeira”, conta Henrique que atualmente faz cursinho pré-vestibular. “Quero ser engenheiro. Vou prestar engenharia de petróleo, um curso que só é oferecido em universidade pública”, disse o estudante, explicando que vem de uma família “sem dinheiro” e onde “ninguém tem diploma”. “Entrar em uma universidade pública é minha única chance de continuar estudando”.

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