“Amizade”: Vorcaro protege Ciro e se recusa a entregar aliados em nova proposta de delação

Atualizado em 3 de junho de 2026 às 9:13
O banqueiro Daniel Vorcaro. Foto: reprodução

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ainda não mudou o tom na nova rodada de negociação de sua delação premiada quando o assunto é o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Segundo envolvidos nas conversas, o banqueiro segue sustentando que não houve corrupção nem relação de “causa e efeito” nos pagamentos feitos ao parlamentar.

De acordo com informações do Globo, Vorcaro já havia indicado que pretendia apresentar mais informações do que na primeira tratativa, mas ainda tenta construir uma versão considerada “light”, com foco em contenção de danos. A avaliação entre investigadores é que, se quiser fechar acordo, ele terá de abandonar a postura defensiva e assumir crimes.

Nas negociações, o dono do Master insiste que os pagamentos a Ciro ocorreram por amizade. Sobre a emenda apresentada pelo senador para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, Vorcaro afirma que o parlamentar agiu por amizade e que não houve favor em troca.

A Polícia Federal, porém, apontou que o texto da chamada “emenda Master” foi redigido dentro do Banco Master, elaborado pela assessoria da instituição financeira, encaminhado a Vorcaro, impresso e entregue em um envelope destinado a “Ciro” na casa do senador.

Outro ponto tratado como sensível é a compra de participação societária de uma empresa ligada a Vorcaro pela CNLF, companhia que tem Ciro como sócio e é administrada pelo irmão do parlamentar. Vorcaro descreve a operação como uma “oportunidade de negócio” e nega que a aquisição por R$ 1 milhão, de uma participação avaliada em R$ 13 milhões, tenha sido contrapartida por serviços prestados.

Vorcaro e Ciro Nogueira durante viagem bancada pelo ex-CEO do Master. Foto: melhorada com IA

A defesa de Ciro Nogueira afirma que o senador não teve participação em atividades ilícitas. A primeira proposta de delação de Vorcaro, rejeitada no último dia 20, foi considerada fraca pela Polícia Federal. Investigadores avaliaram que o material não relatava fatos já conhecidos, tentava proteger pessoas e deixava de fora pontos considerados centrais.

O capítulo sobre Ciro foi visto como exemplo dessa estratégia. Os anexos não mencionavam o pagamento de uma mesada de R$ 500 mil nem despesas de luxo, como viagens e jantares na Europa. Também não abordavam a apresentação da “emenda Master”. Entre investigadores, a suavidade do trecho levou à descrição de que se tratava de “a beatificação de Ciro”.

A nova tentativa começou na semana passada, em reuniões separadas dos advogados de Vorcaro com integrantes da Procuradoria-Geral da República (PGR) e delegados da Polícia Federal. Segundo participantes, ainda não houve avanço concreto sobre o que será oferecido.

Um integrante da equipe de negociação resumiu a condição imposta ao banqueiro. “Ele precisa aceitar que uma delação presume confissão de crimes, não é instrumento de defesa”, afirmou.

Os advogados de Vorcaro também tentam reconstruir pontes com o ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). O magistrado autorizou um regime especial de visitas ao banqueiro, preso, até a primeira quinzena do mês, com aval da PF e do Ministério Público, para que a defesa trabalhe na nova proposta.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.