Ana Estela Haddad, a primeira dama não decorativa. Por Mauro Donato

Ana Estela Haddad
Ana Estela Haddad

 

Quando ainda vemos primeiras-damas meramente decorativas, duas décadas mais novas que o marido, cujo título de ex-Miss Festa da Uva – para não dizer numa ex-miss bumbum – é o atributo mais denso de seu currículo, ou na figura de alguma alpinista social que abandona a carreira e diz não fazer ideia de onde vem a fortuna do marido mas que possui licença para gastar milhões, ou ainda aquelas que dizem ser responsáveis por algum projeto social da boca pra fora, Ana Estela Haddad destoa.

Antes do marido, Fernando Haddad, eleger-se prefeito de São Paulo, ela havia atuado durante nove anos nos ministérios da Educação e da Saúde. Pouca gente sabe, mas ela é autora do texto que deu origem ao Prouni. O papel de primeira-dama não a incomoda, mas parece uma vestimenta de alguma forma inadequada.

“É uma questão de identidade. Manter minha trajetória profissional é muito importante e isso me permite contribuir com coisas pelas quais milito, coisas em que acredito, que estudo. Minha agenda na prefeitura é vinculada a isso”, diz.

Ana Estela é livre-docente no Departamento de Ortodontia e Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da USP. Graduada em Odontologia, Mestre e Doutora em Ciências Odontológicas, ela é voluntária na prefeitura e dá expediente nos intervalos de suas atividades na USP.

Enquanto Michel Temer mora em uma mansão em bairro nobre de São Paulo e ostenta gastos estratosféricos (quando vice, torrou mais de 56 mil dólares em hotéis numa viagem de dois dias), os Haddad vivem há mais de 20 anos num apartamento no Paraíso, tradicional reduto classe média.

— A história de que o poder sobe à cabeça é mito?, pergunto.

— Isso está dentro de cada pessoa. Quais são os seus valores de vida, o que é importante para você. Eu e o Fernando somos dois professores universitários que acreditamos que viver em sociedade implica repartir, fazer com que esteja minimamente bom para todo mundo. E no espaço de poder é importante perguntar-se: ‘você está a serviço de que, de quem, o que irá fazer com isso?’. Nessa medida, acumular não passa pela nossa cabeça.

Fernando Haddad é o candidato de menor patrimônio declarado na Justiça Eleitoral. O prefeito declarou o apartamento e parte da casa na qual passou a infância. Seus R$ 452 mil são inferiores até ao total de bens de Luiza Erundina e ficam longe dos mais de R$ 13 milhões de Marta Suplicy.

Ana Estela Haddad recebeu o DCM em seu gabinete, uma sala espaçosa e elegante no 5º andar do edifício sede da prefeitura, postado numa das extremidades do Viaduto do Chá. Ela acaba de publicar o livro “São Paulo Carinhosa: O que Grandes Cidades e Políticas Intersetoriais Podem Fazer pela Primeira Infância”, um balanço do programa de política municipal inserido no Programa de Metas que coordena desde agosto de 2013 e que propõe melhorar as condições de vida de crianças de até 6 anos de idade.

Voltado para a primeira infância, o projeto envolve 14 Secretarias num compromisso com os direitos sociais e civis sobretudo de crianças em situação de vulnerabilidade.

O São Paulo Carinhosa é inspirado no federal Brasil Carinhoso que Ana Estela viu surgir quando atuava no MEC na interface da Educação com a Saúde. Quando se tornou primeira-dama de São Paulo, decidiu implantá-lo em concordância com os planos que o prefeito tinha para a cidade.

“O Fernando como ministro da Educação deu alguns passos importantes e novos como incluir a idade de 0 a 3 anos no ciclo educacional. Havia o desafio de trazer isso para São Paulo e assim chegamos à conclusão de como eu poderia ajudar. Porque o grande desafio é juntar as pontas em um programa intersetorial para que aquilo que chega ao cidadão possa ser algo mais integrado”, diz.

Juntar as pontas parece ter sido um diferencial que vem desde lá de trás, com o Bolsa Família. Uma ação que combina amparo econômico com exigência de matrícula no ensino, com a nomeação da mulher como beneficiária responsável pela família. O período PT na gestão federal tem índices de redução de pobreza e de extrema pobreza. Chega a 65% nas faixas etárias mais baixas.

“É uma pena que o Bolsa Família não seja reconhecido aqui como é internacionalmente reconhecido. Pesquisadores renomados publicaram um estudo na Lancet – o conceituado jornal inglês de área médica – que mostram a relação causa e consequência na redução da mortalidade infantil, redução de doenças, redução de défict alimentar etc, com o Bolsa Família.”

E por que não é reconhecido?

“Há uma desconstrução na grande mídia com esse propósito”, responde Ana Estela. “Nosso livro traz pesquisas da área de neurologia feitas em Harvard e Yale, cientificamente comprovadas, sobre desenvolvimento infantil nos primeiros anos relacionadas a existência de vínculos afetivos, de assistência social. E os resultados são gritantes. A relação entre negligência e violência é evidente.”

Lembro que essas políticas públicas não têm evitado tragédias como a do menino Italo de apenas 9 anos que foi morto pela polícia após furtar um carro. Onde o poder público está falhando?

“Essas crianças estão à margem de tudo e é nesse sentido que o São Paulo Carinhosa trabalha. Já sabemos que até iniciativas culturais que promovemos visando crianças que estão em situação de abrigamento tem dado resultados positivos”, afirma. “Há também o programa Família Acolhedora no qual quem não pode adotar uma criança pode apadrinhá-la. São saídas que envolvem a sociedade como um todo porque tudo o que depender exclusivamente do poder público será insuficiente pois os desafios são enormes.”

Enormes significa intransponível? O prefeito é duramente criticado pelo não cumprimento do total de creches prometidas. Um recente levantamento demonstrou que a isenção de IPTU concedida a templos religiosos seria suficiente para a construção de 22 creches por ano. Descompasso de prioridades ou a bancada da bíblia é forte demais?

“Não sou a pessoa indicada para falar sobre impostos, mas na educação a prefeitura trabalha com múltiplas estratégias e iremos fechar essa gestão tendo criado 100 mil novas vagas na educação infantil. Esse número é inédito e não é só quantitativo. Trabalhamos com os indicadores nacionais de qualidade que foram criados em 2009 pelo próprio Haddad quando era então ministro. A demanda é imensa, mas a qualidade tem sido prioridade, tanto que hoje há pessoas tirando os filhos da creche privada para colocar na municipal. Servimos 5 refeições por dia.”

ana estela

 

No dia anterior ao da entrevista, um protesto de secundaristas havia sido novamente reprimido com violência pela polícia. Entre as reivindicações dos estudantes, o escândalo da merenda nas escolas estaduais sob a tutela do tucanato. Onde está a diferença?

“O que foi feito com a merenda no município é muito importante. Formou-se uma cadeia que vai desde a agricultura familiar até o Plano Diretor da cidade. A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo serve 2 milhões de refeições por dia. Temos por base o Programa Nacional de Alimentação Escolar do MEC que é o maior do mundo, é premiado internacionalmente”, conta. “Hoje temos 25 países subdesenvolvidos na fila para aprender com a experiência brasileira. Então é muito diferente o que acontece no munícipio com o que ocorre com a rede estadual da qual estes jovens reclamam com toda razão. Nós estamos expandido, não estamos fechando escolas.”

Na esteira da precarização do ensino, coloco outro fantasma sobre a mesa: o Escola Sem Partido. A reação de Ana Estela é de desilusão.

“Estamos num período muito complicado, vendo reaflorar coisas que já acreditávamos superadas. Chegaram a alterar o perfil do Paulo Freire na Wikipedia. Essas pessoas falam em ‘doutrinação’ como se eles não estivessem fazendo isso. Sou contra, terminantemente.”

Ao ouvir ‘coisas que já acreditávamos superadas’, relembro de meus dias acompanhando a implantação da operação Braços Abertos na cracolândia. A região voltou às manchetes devido à novas ações policiais sem alinhamento prévio mínimo, sem uma coordenação unificada entre Estado e Prefeitura (o programa de Geraldo Alckmin prioriza a internação até compulsória muitas vezes) e com gaiatos dando palpites desastrosos sobre como lidar com o problema. O candidato Celso Russomanno, por exemplo, deseja cercar a área com grades.

“Excluir ainda mais quem já é excluído pela sociedade não resolve. Interna-se compulsoriamente e depois? Que passo se dá depois disso? O que precisamos é mudar o olhar para as questões e como abordá-las. O que o prefeito faz é conversar, da oportunidade de moradia, de trabalho, de alimentação, de saúde. Temos uma redução expressiva no índice de consumo pelos adeptos do programa Braços Abertos. Chega a 80%. O programa da prefeitura  recebeu muitas visitas de representantes de países que têm experiência semelhante, como a Holanda, que reforçaram ser essa a melhor abordagem. A redução de danos e a reintegração social. Recentemente tivemos uma avaliação feita pela ONG do George Soros e foi muito positiva. De nossa parte aqui, o São Paulo Carinhosa tem feito uma atuação muito forte com as crianças e gestantes da cracolândia. É uma situação que requer cuidado e não repressão, a não ser com o tráfico.”

Para atender ao DCM, ela havia acabado de chegar de Perus e logo depois de encerrada a entrevista iria para outra agenda em Guaianases, já no início da noite de sexta-feira. Com toda essa postura de preocupação assistencial, por que o índice de popularidade da atual gestão é baixo na periferia?

“De novo temos a questão da informação. Quem trabalha 3 turnos por dia para sobreviver acaba tendo pouco tempo para se informar com mais profundidade. Assimila o que a TV pauta. Mas aqui cabe também uma auto-crítica. Em razão de priorizar recursos para a Saúde e Educação, houve um corte na área de comunicação da prefeitura. Uma opção de governo, mas que tem um preço a pagar.”

As opções de governo parecem ter causado muito desgaste a Haddad, porém suas políticas tão criticadas são agora defendidas pela maioria dos candidatos. Ciclovias, faixas exclusivas para ônibus, avenida Paulista fechada para carros, redução do limite de velocidade… Ninguém mais fala em reverter e sim em ‘aperfeiçoar’. Haddad foi incompreendido?

“Haddad pautou o debate e não teve medo de fazer o que achava que deveria ser feito, e o fez sem cálculo político eleitoral. Pensou como um gestor que quer o melhor para a cidade. Esse é o maior reconhecimento, é quando a política pública adotada acaba incorporada pela cidade como um bem. O que é incorporado como um valor pela sociedade, nenhum político tem coragem de interromper.”

Um fato curioso nas intenções de voto é que o segundo lugar nas pesquisas aponta para brancos e nulos. Por que o desencantamento da população?

“Tem como ser diferente? Se você ligar a TV o que ouve? O que estão fazendo com a política… quem quer hoje entrar nesse espaço hoje? Estão fazendo uma coisa horrorosa, jogando tudo no mesmo saco.”

É a favor de novas eleições?

“É triste o que estamos vivendo. Dilma foi eleita. Mas dado o grau de desgaste a que chegamos, se não há jeito de devolver à César o que é de César, o melhor a fazer é convocar novas eleições. O que não podemos é ficar com um governo que não foi eleito.”

O episódio do impeachment terá influência sucessão municipal?

“Vai haver uma tentativa muito forte de se relacionar as coisas, fazer com que essas situações se conectem, então espero que as pessoas se informem corretamente porque o projeto de cidade que está em jogo é muito diferente dos projetos que estão aí apresentados pelos outros candidatos. Inclusive no projeto de país.”

Já que estamos em projetos, o que deseja ainda fazer por São Paulo e pelos programas que coordena?

“Se houver a chance de continuidade desse trabalho eu faria duas coisas: um sistema integrado de informação com os dados individuais da criança para que possamos acompanhar de forma integrada a saúde, educação, assistência social. Dados de crescimento, desenvolvimento, vínculos, tanto para termos um monitoramento mais apurado das ações que estão sendo implementadas quanto fazer intervenções mais precisas. O outro aspecto que gostaria de focar com mais intensidade é a questão da gravidez na adolescência”, diz.

“Um problema que muitas vezes começa em casa, situações não expostas socialmente, mas que são de uma crueldade imensa. Junto com isso vem a expulsão de casa, o abandono dos estudos, a própria gravidez é de maior risco. O problema não se resume em informação, é preciso formação. Não adianta apenas informar sobre prevenção e depois jogar toda a responsabilidade em cima de uma menina formada num meio machista. A Seinfo (um serviço de informações da Saúde) tem um levantamento interessante de dados por distrito. Em Pinheiros a incidência de gravidez precoce é de 0,2%. Em Cidade Tiradentes é de 20%. É um desafio que precisamos evoluir.”

 

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