Antes de Maria Corina Machado, escritor norueguês deu seu Nobel ao nazista Goebbels

Atualizado em 17 de janeiro de 2026 às 11:20
Knut Hamsun e María Corina Machado entregaram seu Nobel a ditadores

Donald Trump não é o primeiro personagem da história a receber uma medalha do Prêmio Nobel de um vassalo.

Antes de María Corina Machado, houve Knut Hamsun, o grande escritor norueguês vencedor do Nobel de Literatura em 1920. Após a invasão da Noruega pela Alemanha nazista, em abril de 1940, Hamsun tornou-se um apoiador ativo da ocupação. Passou a publicar artigos defendendo o regime e responsabilizando o Reino Unido pelo conflito, adotando uma postura abertamente hostil aos aliados.

Além disso, Hamsun era um admirador declarado de Adolf Hitler. Em 1940, escreveu que “os alemães estão lutando por nós” e, mais tarde, descreveu o führer como “um guerreiro da humanidade” e “um pregador do evangelho da justiça para todas as nações”. Viajou até o Ninho da Águia, residência de Hitler nos Alpes, em Berchtesgaden, para encontrá-lo pessoalmente.

Em maio de 1943, Hamsun manteve uma reunião privada com Josephe Goebbels. O ministro da Propaganda registrou em seu diário que a “fé do escritor na vitória alemã era inabalável”. A relação entre os dois se estreitou, culminando em um gesto simbólico que entraria para a história.

Pouco depois de retornar à Noruega, Hamsun enviou sua medalha do Prêmio Nobel a Goebbels. Em carta datada de 17 de junho de 1943, declarou que não conhecia ninguém que tivesse “escrito e falado de forma tão incansável, ano após ano, pela causa da Europa e da humanidade” quanto Goebbels.

No texto, pediu desculpas por enviar a medalha, afirmando que se tratava de “uma coisa completamente inútil”, mas que não tinha nada mais a oferecer.

Goebbels respondeu poucos dias depois, dizendo ver o presente como um símbolo da ligação de Hamsun com a “luta por uma Europa útil e uma sociedade feliz”. A medalha, no entanto, desapareceu após a morte de Goebbels, em maio de 1945, e nunca mais foi localizada.

No pós-guerra, a colaboração de Hamsun com o regime nazista levou o escritor à desgraça pública. Ele chegou a ser preso, mas foi considerado dono de “faculdades mentais permanentemente comprometidas”. Ainda assim, acabou multado em 325 mil coroas norueguesas por sua filiação ao partido colaboracionista Nasjonal Samling, alinhado ao nazismo.

 

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.