Antes do Porta dos Fundos, o terror evangélico atacou religiões afro e ninguém fez nada. Por Sacramento

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Existe um pequeno equívoco nos protestos ao ataque à sede da produtora Porta dos Fundos, na véspera deste Natal. Ao contrário do que foi dito em manifestações nas redes sociais, as duas bombas incendiárias não inauguram a temporada de intolerância religiosa no país.

Violências como a sofrida pela produtora do especial de Natal que retrata um Jesus gay atingem há décadas as religiões de matriz africana.

Segundo o babalawô e pesquisador Ivanir dos Santos, só no estado do Rio de Janeiro são mais de 200 terreiros ameaçados. A afirmação ocorreu em um evento promovido em setembro pelo Ministério Público do Rio de Janeiro para discutir o problema da intolerância religiosa.

Há relatos da atuação de grupos compostos por traficantes em atos de vandalismo em terreiros. Pelo menos 20 casos dos chamados “bondes de Jesus” estão sendo investigados.

A intolerância não perdoa nem crianças, como foi o caso do ataque a Kaylane Campos, quatro anos atrás. A menina, na época com 11 anos, foi ferida por uma pedrada na cabeça quando andava por uma rua do Rio de Janeiro vestindo roupas do candomblé.

Pelo menos duas mulheres idosas, Mãe Gilda e Mãe Dede de Iansã, faleceram na Bahia após os terreiros que lideravam serem alvos do ódio de evangélicos extremistas.

Mãe Gilda faleceu em janeiro de 2000, depois de ser atacada pelo jornal Folha Universal, da Igreja Universal do Reino de Deus.

A publicação da matéria “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”, em 1999, atiçou um grupo de fanáticos a invadir e depredar o terreiro fundado pela ialorixá.

Destroçada pela matéria falsa e pela destruição do templo, Mãe Gilda morreu aos 65 anos de infarto.

No caso da Mãe Dede de Iansã, ocorrido em 2015, em Camaçari, os extremistas evangélicos nem precisaram recorrer à força física para dar fim à mãe de santo. Bastou eles passarem a madrugada em frente à casa da ialorixá orando com a justificativa de expulsar os demônios que segundo eles estavam ali.

Os gritos de “afasta o demônio” e “limpa esse território do satanás e das forças malignas” foram demais para o coração da senhora de 90 anos, que passou mal e morreu.

A essa violência explícita soma-se a violência simbólica mas igualmente nociva praticada por quem associa as religiões de matriz africana ao satanismo sem se dar ao trabalho de conhecer a história por trás dessas crenças.

Palavras, sermões, notícias falsas e memes de escárnio à umbanda e ao candomblé circulam impunemente, em templos cristãos nas periferias e nas áreas ricas.

De vez em quando este ódio se materializa em ataques que na maioria das vezes nem vêm a público. Quando o alvo deixa de ser os de sempre, como foi com a produtora Porta dos Fundos, a notícia recebe tons de ineditismo.

Para quem segue as crenças de matriz africana, a ira destruidora dos cristãos extremistas é uma velha conhecida.

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