
A antropóloga, professora e escritora Débora Diniz, referência no debate sobre direitos reprodutivos no Brasil, criticou a Folha de S.Paulo pela charge publicada após a morte da juíza Mariana Francisco Ferreira, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, aos 34 anos.
Mariana morreu em 6 de maio. Juíza do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, ela sofreu complicações durante um procedimento de reprodução assistida. Em fevereiro, havia sido designada para atuar na Vara Criminal de Sapiranga, no interior do estado.
O desenho publicado pela Folha no dia 9 mostrava uma lápide com a frase: “Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos”.
Escreveu Débora em seu Instagram:
A charge publicada hoje pela Folha de S.Paulo não era sobre a juíza Mariana Francisco Ferreira. Me parece ser uma crítica aos penduricalhos do Judiciário. A crítica institucional é legítima, necessária e faz parte da vida democrática.
Mas imagens e textos nunca circulam no vazio.
A charge foi publicada no dia seguinte à notícia da morte de uma jovem juíza de 34 anos, falecida em um procedimento ligado às tecnologias reprodutivas. E, por isso, ainda que não fosse diretamente sobre ela, passou inevitavelmente a dialogar com essa morte.
Talvez seja justamente aí que esteja o desconforto de tantas mulheres.
Porque a história de Mariana toca em algo estrutural e silencioso: o adiamento da maternidade entre mulheres altamente qualificadas, submetidas a longos percursos de formação, jornadas intensas de trabalho e exigências permanentes de produtividade. A maternidade vai sendo deslocada para depois — depois da estabilidade, depois da aprovação, depois da consolidação da carreira, depois do momento “certo”.

Então entram em cena as tecnologias reprodutivas, os hormônios, os procedimentos médicos e os riscos envolvidos na tentativa de conciliar trabalho, tempo biológico e desejo de maternar.
Mariana ocupava um espaço de prestígio social. Ainda assim, não escapou da tensão contemporânea entre produção e cuidado. Entre carreira e reprodução. Entre autonomia econômica e maternidade.
A questão talvez não seja censurar humor, crítica ou imprensa. A questão é perceber que certos acontecimentos alteram temporariamente o modo como uma imagem pública é recebida. O contexto produz sentidos.
Vale ler a nota do coletivo Antigona de magistradas. @antigonatjpr