
Ao menos 157 menores de idade brasileiros foram apreendidos por agentes de imigração nos Estados Unidos entre janeiro e outubro de 2025, segundo dados do governo estadunidense. Desse total, 142 crianças e adolescentes foram encaminhados a centros de detenção do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega, na sigla em inglês).
O levantamento da Folha de S.Paulo foi feito a partir da análise de documentos obtidos por meio da lei de acesso à informação dos Estados Unidos e compilados pelo Deportation Data Project, iniciativa vinculada à Universidade da Califórnia. Os registros revelam que os menores apreendidos vão de bebês nascidos em 2024 a adolescentes nascidos em 2008, com idades entre 16 e 17 anos.
O número pode ser maior, já que não foram incluídos dados de nascidos em 2007, cujas idades não puderam ser determinadas com precisão.
Segundo os documentos, 114 desses menores deixaram o país. Não há informação oficial sobre quantos estavam acompanhados de adultos, mas em ao menos 40 casos é possível inferir que se tratavam de detenções familiares. Isso porque algumas unidades do sistema migratório, como o South Texas Family Residential Center, em Dilley, e o Karnes County Residential Center, no Texas, são destinadas a famílias. O primeiro recebeu 29 menores brasileiros no período analisado, e o segundo, 11.
O caso de permanência mais longa envolve um menino nascido em 2023, que passou 44 dias detido no centro de Dilley entre julho e setembro de 2025. De acordo com dados do governo estadunidense, ele foi deportado em 3 de setembro.
O centro no sul do Texas foi alvo de protestos após a apreensão de Liam Conejo Ramos, um menino equatoriano de cinco anos, detido com o pai em janeiro de 2026, em Minneapolis. Um deputado que o visitou afirmou que a criança estava deprimida. As imagens de Liam, usando um gorro azul com orelhas de coelho e uma mochila do Homem-Aranha, se tornaram símbolo dos protestos contra as ações migratórias do governo Donald Trump.

Para identificar quantos brasileiros tiveram destino semelhante, a reportagem analisou duas bases do Deportation Data Project. Em operações diretas do ICE, sem envolvimento do CBP (Serviço de Alfândega e Proteção das Fronteiras), foram 84 menores apreendidos: 69 levados a centros de detenção e 15 liberados após registro. Em outra base, que reúne imigrantes custodiados pelo ICE após apreensão inicial por outras agências, aparecem 73 menores brasileiros, a maioria detida na fronteira com o México.
O perfil etário varia conforme o órgão responsável pela abordagem. Quando o CBP é a agência inicial, 53% têm entre 1 e 5 anos. Já nas apreensões feitas diretamente pelo ICE, as faixas etárias são mais equilibradas. Meninos representam 89 casos, e meninas, 68.
Entre os detidos diretamente pelo ICE, 53 foram apreendidos em Boston, onde há grande comunidade brasileira. Um dos casos envolve um adolescente de 13 anos detido em outubro de 2025, acusado de ligação com gangue. Embora não conste data de soltura nos registros, jornais locais informaram que ele retornou ao Brasil.
Dados do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania indicam 93 menores deportados em 2025, número inferior ao apurado pelo projeto acadêmico. A diferença se explica pela dificuldade de acesso a informações do ICE e por registros de menores enviados a outros países.
O Itamaraty informou que as autoridades estadunidenses não compartilham dados sistemáticos e que a assistência consular depende de solicitação da família ou do detido.