Ao oferecer vaga de vice a empresário, Ciro Gomes mostra que não consegue superar instintos de coronel. Por Joaquim de Carvalho

Ciro Gomes. Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

O ex-ministro Ciro Gomes aparece na última pesquisa de intenção de voto com 2%, segundo o Vox Populi, e com 5%, conforme o Datafolha.

Bem atrás de Lula, com 47% segundo o Vox Populi e 31%, de acordo com o Datafolha.

Sem Lula, de acordo com o Datafolha, Ciro vai a 9%, atrás de Bolsonaro e Marina Silva e empatado com Joaquim Barbosa e Geraldo Alckmin.

Ciro não é, portanto, um candidato de ponta, mas tem saído com freqüência e destaque nas páginas da velha imprensa.

Hoje está no Estadão, segunda-feira na Folha.

Ciro diz frases que chamam a atenção, geram manchete, mas politicamente não têm fundamento.

Tem vazado que quer Fenando Haddad vice em sua chapa e já ofereceu o posto a outros petistas.

Mas o fato é que uma aliança entre o PT e Ciro só faria sentido se coubesse a ele a vaga de vice.

Pelas pesquisas, a liderança nas intenções de voto é de Lula e a vice-liderança, a quem Lula indicar.

Segundo o Vox Populi, 23% dos eleitores dizem que votariam no candidato que o ex-presidente indicasse.

Como Lula é uma alma que se confunde com a do PT, difícil imaginar que ele indicaria alguém que não fosse do partido que fundou.

Nesta condição, resta a Ciro, numa hipotética aliança no primeiro turno, a vaga de vice.

Mas Ciro não aceita. Na entrevista ao Estadão, contou que ofereceu a vice a um empresário.

“Eu gostaria de escolher alguém da produção ligado ao Sudeste brasileiro, Minas Gerais, São Paulo”, disse Ciro.

Um dos repórteres perguntou: Josué Gomes da Silva, da Coteminas, é um deles? 

“É sim, com certeza. Somos amigos há anos. Fui amigo do pai dele, José Alencar. Eu já disse a ele: se quiser, é dele”, respondeu.

Ciro Gomes deixa o seu eleitor confuso.

Se garantiu o lugar ao filho de Alencar, faz sentido vazar à imprensa que conversa com o ex-prefeito Fernando Haddad, do PT, para tentar convencê-lo a ser vice na sua chapa?

A verdade é que Ciro, apesar dos inegáveis méritos políticos que possui, não tem compromisso com as palavras.

Nem com partidos, inclusive o atual — em sua história, ela já foi do PDS (sucessor da Arena, partido de sustentação da ditadura militar), PMDB, PSDB, PPS, PSB, PROS e agora PDT.

Josué Alencar trocou recentemente o MDB pelo PR, e nenhum dos dois partidos —PR dele ou PDT de Ciro — se reuniu para decidir quem será candidato.

Mas Ciro é assim: faz política como se fosse uma extensão de sua vontade pessoal.

“Se quiser, é dele”, disse, como se a obtenção da legenda num partido político fosse algo tão banal e corriqueiro quanto comprar tecido para fazer alpargatas.

Ciro poderia aprender com Lula, o maior líder popular do Brasil. Lula sempre subordinou suas ações à estratégia do PT.

Em 2001, ele se reuniu com José Dirceu, Antônio Palocci, Eduardo Suplicy, Tarso Genro e Aloizio Mercadante para anunciar que achava melhor não disputar a eleição no ano seguinte.

“Eu disputei três vezes e perdi. Minha rejeição é alta. Eu acho que está na hora de vocês se reunirem e tirarem outra candidatura. Eu vou apoiar o nome que for escolhido entre vocês”, comunicou.

Suplicy levou a sério as palavras de Lula, e começou a costurar a pré-candidatura. Tarso Genro esboçou uma candidatura, mas recuou.

No ano seguinte, sob apelos da militância, Lula se candidatou, mas teve de disputar prévia com Suplicy.

É provável que Lula nunca tenha pensado seriamente em dar lugar a outra candidatura, mas, ao fazer a reunião, subordinou sua vontade pessoal à do PT.

Vem daí sua força.

Em julho do ano passado, em um encontro em Diadema, Lula disse:

“A Globo está preocupadíssima em encontrar um candidato para derrotar o Lula em 2018. Primeiro porque, do lado dos tucanos, um tiro só matou a revoada de tucanos de uma vez. Uma denúncia e já caiu todo mundo. Eu, só de revista, devo ter umas 60 capas contra mim. O Jornal Nacional já completou mais de 20 horas falando mal do Lula. E por que eles não conseguem me quebrar?”

Lula, de pé, com o microfone em punho, se curva para frente, se dirigindo ao publico, como se falasse olho no olho a cada um ali presente, e responde à pergunta que ele mesmo fez: “Por que não conseguem me quebrar?”

“Porque eu não sou eu, eu sou vocês!”

Quem estava sentado se levanta e todos começam a aplaudir:

“Lula guerreiro do povo brasileiro”.

Ciro Gomes poderia aprender também com Leonel Brizola, o fundador do PDT, personagem da política em quem dá demonstração de se inspirar.

Mas há muita diferença entre eles.

Brizola subordinava sua vontade ao PTB de Getúlio Vargas.

Tanto é assim que, depois do exílio, com a redemocratização, quando tentou retomar o PTB e perdeu a legenda para Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio (mas ligada ao general Golbery do Couto e Silva), protagonizou uma cenas mais marcantes da política brasileira: chorou diante das câmeras.

Na trajetória de Ciro, o que é maior do que Ciro? Não há. A que valores, subordina-se além de sua vontade pessoal de ser presidente da República? Não há.

Hoje é brizolista, mas anteontem era candidato a presidente pelo PPS com Paulinho da Força na condição de vice.

Seus indiscutíveis méritos — a lealdade que demonstrou a Dilma Rousseff no período  do impeachment é um deles, a resistência ao projeto neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, antigo aliado, outro — não apagam os traços originais de sua história.

Ciro tem mente moderna, mas pernas e braços de coronel. Às vezes, estes o traem.

Na escassez de decência do mundo político, se destaca. É um oásis em meio ao deserto.

Mas está longe de ser um Brizola e, tendo oportunidade de aprender com Lula, preferiu seguir seus instintos. Com isso, limita suas possibilidades.

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