Ao permanecer, Mandetta prova que venceu queda de braço com Bolsonaro: hora é de agir, cobram parlamentares

Ministro Mandetta em entrevista ao Fantástico

Parlamentares reagiram às falas do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, depois do chefe da pasta admitir que a resistência de Jair Bolsonaro em seguir as orientações de isolamento para deter a contaminação pelo coronavírus no país tem deixado a população confusa. ‘Brasileiro não sabe se escuta o ministro ou o presidente’, disse o chefe da pasta em entrevista ao Fantástico deste domingo (12).

Sem citar os sucessivos episódios de boicote protagonizados pelo presidente, Mandetta afirmou que a contrariedade de Bolsonaro em seguir as recomendações ‘preocupa’ e que o país ainda viverá ‘dias duros’ entre maio e junho.

“Simples: tudo posto, o ministro Luiz Henrique Mandetta corretamente desautorizou o presidente Jair Bolsonaro, declarou o vice-líder do PCdoB, deputado federal Márcio Jerry (MA), em defesa das medidas estabelecidas pelo chefe da Saúde.

Para o deputado Ivan Valente (PSOL-SP) a entrevista deixou clara, mais uma vez, a necessidade de intervenção do presidente. “As críticas abertas de Mandetta ao Bolsonaro, no Fantástico, mostram que o presidente está cada vez mais isolado na sua loucura negacionista. Bolsonaro insiste em dar o exemplo do que não pode ser feito. Ele virou vetor da pandemia. Por razões sanitárias, deve ser interrompido”, disse o deputado.

Irritado com a disputa interna pelo poder entre ministro e presidente, o deputado Danilo Cabral (PSB-PE) afirmou que é preciso converter a troca de farpas em ações concretas para conter a pandemia. “Esse disco arranhado da arenga de Bolsonaro com Mandetta já cansou. Eu quero saber é quais as medidas objetivas do Governo Federal de enfrentamento à Covid-19. Como está a aquisição testes, EPIs [Equipamentos de Proteção Individual], respiradores, ventiladores, leitos de UTIs, investimentos em pesquisa?”, questionou.

Senador eleito pelo Cidadania de Sergipe, Alessandro Vieira, apostou em um vencedor na “luta” travada dentro do Governo usando como analogia a polêmica que, segundo a tradição, Galileu Galilei pronunciou depois de renegar a visão heliocêntrica do mundo perante o tribunal da Inquisição. “A luta entre ciência e ignorância é eterna. A Inquisição obrigou Galileu a renegar a descoberta de que a Terra se move entorno do Sol. Sua frase eppur si muove [mas se movimenta, em latim] ficou como registro sutil de que fatos reais não são mudados por opiniões ou força. Mandetta também lembra isso a Bolsonaro”, escreveu em suas redes.

Já a deputada Margarida Salomão (PT-MG) criticou a passividade do ministro diante da influência de Bolsonaro e exigiu postura do gestor. “A entrevista de Mandetta ao Fantástico demonstra a limitação da figura de imagem do médico/paciente. Não, o país não é um paciente diabético que come doces. Não adianta o médico dizer que isso é errado. O ministro da Saúde é um gestor político, com o dever de tomar decisões. Nesse sentido, é horrível Mandetta tentar amenizar toda a série de falas e ações irresponsáveis e criminosas de Bolsonaro. Ele deve condená-las. Não há outra postura aceitável. Covid-19 não irá se sensibilizar por isso”, definiu.

Outro parlamentar a criticar o atual comandante da Saúde foi o deputado Jorge Solla (PT-BA). Para Solla, a entrevista será o teste final sobre a permanência ou não de Mandetta no cargo, após as inúmeras especulações sobre sua saída, na semana passada. “Pouca gente comentou, mas a resignação de Mandetta com a pouca quantidade de testes que temos é muito preocupante. Só poderemos saber a hora de reabrir e de voltar a fechar as atividades se pudermos realizar uma grande quantidade de testes diários. Isso é ciência. Vimos hoje Mandetta testar seu poder. Se não cair, é porque tem capacidade de fazer o que tem que ser feito, e deixar o presidente falando sozinho. Ou cai, o que demonstraria que a carta verde que ele tinha não era tão verde assim, logo é melhor cair agora do que lá na frente”, disse.

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