Aos que merecem o véio da Havan. Por Moisés Mendes

Luciano Hang, o véio da Havan. Foto: Reprodução/Twitter

Publicado originalmente no Blog do Moisés Mendes:

MOISÉS MENDES

Botaram fogo na estátua da loja do véio da Havan em São Carlos, ou a estátua se autoimolou em situação de desespero. O véio da Havan se apropriou da imagem da Estátua da Liberdade para reproduzir réplicas grotescas espalhadas pelo país.

Quase toda réplica de imagens transformadas em ícones da humanidade, para o bem e para o mal, acaba sendo, por mais perfeita que pareça, uma aberração artística e cultural.

As estátuas do véio da Havan são também aberrações políticas, porque as ideias do dono das lojas não se conectam com quase nada que expresse liberdade.

Ele acha que, que por ser um ‘liberal’ do ponto de vista econômico, a liberdade está ao seu lado e com ele caminha, inclusive quando é processado por sonegar contribuições sociais de seus funcionários ou por constrangê-los a apoiar os candidatos da firma.

Mas colocaram fogo na estátua. O que importa, a cada notícia como essa, é ter clareza do significado do véio da Havan como modelo de empresário e como representação do bolsonarismo econômico do vale tudo.

O véio da Havan está exposto às reações que provoca. Mas não me incluo entre os que desejam a destruição das suas estátuas. Estou entre os que defendem, como direito, o boicote às lojas do véio da Havan.

Uma pessoa com um gay na família, ou um parente negro ou um filho ou um amigo com deficiência e que já foi humilhado pela extrema direita – se essa pessoa entrar e comprar nas lojas do véio da Havan é porque submeteu sua resignação a um indivíduo que reclama da sinalização para cegos em suas lojas por trazerem prejuízo estético para o piso.

Um sujeito com parentes que a extrema direita usa como alvos dos seus ataques, de preconceitos e de ódios e mesmo assim compra nas lojas de um cara que humilha os cegos tem mesmo que votar em Bolsonaro, perder a aposentadoria, ser condenado a ver a destruição do SUS e da universidade pública e ainda aplaudir as ações do fascismo.

Alguém que, para comprar bugigangas da China, pensando em obter alguma vantagem, ignora as ofensas do véio da Havan, e que faz programa de fim de semana passeando nos corredores das lojas de quinquilharias tem que se resignar com o desprezo da extrema direita por pobres, negros, índios e pessoas que eles consideram imperfeitas.

A estátua incendiada era de resina sintética, quando todos pensavam que as réplicas seriam de concreto. A liberdade do véio da Havan, mesmo quando representada, não é o que até os seus seguidores pensam que possa ser.

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