Apesar de ameaças, Larissa Bombardi continuará pesquisas contra agrotóxicos mesmo no exílio

Publicado originalmente na Rede Brasil Atual

Larissa Bombardi, Autora do atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia

A professora Larissa Mies Bombardi, colunista da Rádio Brasil Atual e pesquisadora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), publicou uma extensa carta aberta nesta quinta (18). Em tom de desabafo, ela relata ataques ao seu trabalho, sobretudo após a publicação de seu atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, em 2019. As ameaças, além de outros motivos pessoais, a fizeram decidir deixar o país.

Há anos o trabalho de Larissa Bombardi incomoda entusiastas do agronegócio que não sabem produzir sem veneno – e sem se importar com suas consequências presente e futuras, ao meio ambiente e à saúde humana. A convite da emissora, Larissa compartilhou todos capítulos da série que trouxe em suas colunas e nas quais destrincha sua obra. A RBA organizou tudo num grande “atlas radiofônico” (veja no quadro).

Na manhã desta sexta-feira (19), dois especialistas falaram à Rádio Brasil Atual sobre a importância da obra da professora Larissa e a continuidade de seu trabalho científico contra os agrotóxicos mesmo no exílio. Um deles é o também geógrafo Marco Antonio Mitidiero Junior, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia e Coordenador do Fórum Humanidades. Mitidiero é mestre e doutor em Geografia Humana pela USP e professor das universidades federais de Sergipe e da Paraíba. Também participou da conversa com Marilu Cabañas o deputado federal Nilto Tatto (PT-SP), coordenador da Frente Parlamentar de Apoio aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Ambos ressaltaram a importância da solidariedade e anunciaram a rede de apoio à professora Larissa.

Agro é pop?

As tentativas de intimidação contra a pesquisadora se intensificaram depois de a maior rede de supermercados orgânicos da Escandinávia passou a boicotar produtos brasileiros contaminados por produtos que a Europa já baniu há muito tempo. “Não é novidade a perseguição a pesquisadores. O que estamos vendo é uma ampliação imensa desse perseguição, da construção do medo, da desqualificação do trabalho científico. E isso nós estamos acompanhando ao vivo, não está mais só nos subterrâneos. Está no dia a dia da população brasileira e mundial”, afirma Metidiero. “A pesquisa da Larissa toca num mercado trilionário, ao ponto de a pesquisadora ter de tentar sair do país. Isso é dramático para um país que tem o maior uso de veneno nas lavouras do mundo.”

Para Nilto Tatto, o trabalho de Larissa Miers Bombardi faz as pessoas que acompanham todo dia a “propaganda do agro é pop” se questionarem. Ela confronta a imagem de que esse modelo de agricultura baseado no uso intensivo de veneno financia o Brasil. “O impacto desse modelo está no meio ambiente e na saúde das pessoas, e no quanto o Brasil gasta em saúde para curar doenças causadas pelo veneno que vem na alimentação. Então, é o Brasil que financia esse modelo de agricultura”, observa o deputado. “Evidente, os países que importam produtos da agricultura brasileira começam a pressionar porque não querem envenenar o seu povo.” Tatto lembra ainda que a bancada ruralista é a maior do Congresso Nacional, que setor que elegeu o presidente da República, e agora os do Senado e da Câmara. “A gente tem certeza de que pessoas como a Larissa, mesmo estando lá fora, vai continuar produzindo pesquisa e conhecimento para o bem do Brasil.”