Após irregularidade grave, gestão Nunes elevou contrato de ONG de “Dark Horse” para R$ 143 mi

Atualizado em 1 de junho de 2026 às 20:42
Ricardo Nunes
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). Foto: Ronny Santos/Folhapress

A Prefeitura de São Paulo ampliou para R$ 143 milhões o contrato com o Instituto Conhecer Brasil, ONG ligada à produtora do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O aditivo foi assinado em dezembro de 2025, após a gestão de Ricardo Nunes (MDB) já ter pago R$ 93,5 milhões à entidade.

O contrato é destinado à instalação de pontos públicos de wi-fi na capital paulista e vale até o fim de 2026. Com o aditivo, a prefeitura se comprometeu a repassar mais R$ 49,2 milhões à ONG ao longo deste ano, em um acréscimo de 50% sobre o valor pago até então. Atualmente, a gestão municipal paga R$ 4,1 milhões por mês ao instituto.

A entidade é presidida por Karina Ferreira da Gama, que também é dona da Go Up Entertainment, produtora responsável por “Dark Horse”. A Polícia Civil de São Paulo deflagrou uma operação nesta segunda-feira (1º) para apurar suspeitas de desvio de verba pública no contrato e investigar se parte dos recursos pode ter sido usada no filme sobre Bolsonaro.

Antes da ampliação, a área técnica da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia apontou “irregularidade grave” na prestação de contas de 2024 da ONG. O parecer cobrou a devolução de quase R$ 1 milhão destinado de forma incorreta, incluindo R$ 925 mil em pagamento duplicado a um fornecedor que foi glosado pela prefeitura.

Karina Gama
A dona do Instituto Conhecer Brasil (ICB), Karina Gama, e o deputado Mário Frias. Foto: Reprodução

A prefeitura afirmou que os valores foram integralmente devolvidos pela ONG em 2025 e negou que recursos municipais tenham sido direcionados ao filme. Segundo a gestão Nunes, o aditamento teve como objetivo manter 3.200 pontos de wi-fi já em operação, e “a produção do filme não recebeu recursos municipais”.

O comprovante de restituição apresentado pelo Instituto Conhecer Brasil é de julho de 2025, mas só foi registrado em processo administrativo em 22 de maio de 2026. Antes disso, em 11 de maio, o secretário municipal de Inovação e Tecnologia, Humberto de Alencar, aprovou a prestação de contas da entidade mesmo antes de as falhas estarem formalmente sanadas.

Karina é ligada ao deputado federal Mario Frias (PL-SP), um dos responsáveis por “Dark Horse”. Ela recebeu R$ 54 mil da campanha dele em 2022 por serviço de assessoria de imprensa, e o parlamentar destinou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil após assumir o mandato.

Questionada pelo Globo sobre os recursos enviados por Mario Frias à ONG e a aliados ligados à entidade, Karina não respondeu. Mario Frias e Marcelo Machado, dirigente de outra entidade comandada por Karina, também não retornaram os contatos.

Laura Jordão
Estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política e estagiária pelo Diário do Centro do Mundo. Adoro ciclismo, e busco estudar sobre mobilidade urbana e políticas públicas.