Após pedir “fogueira” para jornalistas, Milei é denunciado na ONU

Atualizado em 27 de outubro de 2026 às 21:31
Milei
O presidente da Argentina, Javier Milei. Foto: Ammar Awad/Reuters

A Anistia Internacional anunciou que denunciará o presidente argentino Javier Milei à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) após ele afirmar que jornalistas deveriam “queimar na fogueira”. Em comunicado divulgado na segunda-feira (26), a organização classificou as declarações como uma escalada grave de hostilidade à imprensa e cobrou garantias para o exercício do jornalismo.

Em um discurso na Fundação Faro, Milei citou nominalmente Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrígues, Natalia Volosin e Luis Novaresio, que cobriram o caso da criptomoeda $LIBRA, promovida por ele em 2025. Chamou jornalistas de corruptos, mercenários da mentira e fabricantes de operações. Em seguida, usou a imagem da fogueira acompanhada de um xingamento. A Anistia sustenta que a fala individualiza e estigmatiza profissionais, ultrapassando a crítica à cobertura jornalística.

A diretora-executiva da Anistia na Argentina, Mariela Belski, advertiu que apontar publicamente jornalistas e associá-los a imagens de violência pode abrir caminho para novas agressões. Segundo a entidade, a responsabilidade reforçada do cargo presidencial exige proteger a liberdade e a segurança da imprensa. O assédio também prejudica o direito da sociedade de receber informações e favorece a autocensura.

O comunicado cita o monitoramento do Fórum de Jornalismo Argentino (FOPEA), que registrou 278 ataques a jornalistas em 2025, alta de 55% sobre 2024 e o maior número desde o início da série, em 2008. Milei foi identificado como autor de 119 episódios, tornando-se o principal agressor individual. O levantamento contabilizou ainda 139 casos de discurso estigmatizante, 20 ações judiciais contra jornalistas e 28 restrições de acesso à informação.

O documento também detalha uma audiência realizada na CIDH em 19 de novembro de 2025, com organizações de direitos humanos, entidades jornalísticas e sindicatos. Depois das denúncias sobre agressões, assédio judicial e violência nas coberturas de protestos, a comissão solicitou informações ao Estado argentino sobre medidas de prevenção e proteção. Manifestou ainda interesse em visitar o país.

A Anistia cobra que as autoridades interrompam a intimidação e a estigmatização, previnam a violência e reconheçam publicamente a legitimidade do jornalismo, inclusive quando crítico ao governo. A organização afirma que investigar quem governa é uma função essencial da imprensa para o controle democrático do poder.

A organização já havia denunciado a ampliação da vigilância estatal na Argentina e seus efeitos sobre a liberdade de expressão. Em relatório divulgado neste ano, apontou riscos de intimidação e autocensura associados ao uso de tecnologias de monitoramento. Na ocasião, o Ministério da Segurança argentino afirmou que o reconhecimento facial pela Polícia Federal era empregado somente em investigações judiciais em andamento.

Laura Jordão
Estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política; escrevo pelo Diário do Centro do Mundo!