“Aprender dar e receber”: as concessões que o Irã cobra dos EUA para seguir negociando

Atualizado em 21 de abril de 2026 às 7:55
Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: Molly Riley/Casa Branca

Às vésperas do fim do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos, previsto para a noite desta quarta-feira (22), o governo iraniano elevou o tom e deixou em suspense até mesmo sua presença nas negociações marcadas para Islamabad. A mensagem transmitida por fontes de Teerã resume a lógica que guia o regime neste momento: “Os americanos precisam aprender que negociar é dar e receber”.

A frase sintetiza a tentativa do Irã de transformar a própria incerteza sobre comparecer ou não ao encontro em instrumento de pressão diplomática. Nos bastidores, de acordo com informações da CNN Brasil, a avaliação é que os iranianos devem participar das conversas, mas não sem antes deixar claro que pretendem impor condições.

Segundo as fontes, o Irã aceita discutir a extensão do período em que ficaria impedido de enriquecer urânio, admite entregar seu estoque de urânio altamente enriquecido a um país aliado, como o Paquistão, e também sinaliza com a reabertura do Estreito de Ormuz, um dos pontos mais sensíveis da crise.

Em troca, cobra o fim do bloqueio estadunidense à região, o levantamento das sanções econômicas, o descongelamento de depósitos mantidos no exterior e o abandono da exigência de que o país nunca mais possa manter um programa nuclear com fins pacíficos.

A dificuldade de Donald Trump para ceder nesse ponto, segundo a avaliação exposta no texto, é também política. O presidente dos Estados Unidos já admitiu, em publicação na própria rede social, que não pode terminar essa crise assinando um acordo parecido com o que Barack Obama firmou com Teerã em 2015 e que ele próprio desmontou em 2018. Naquele pacto, o Irã podia enriquecer até 300 quilos de urânio a 3,67%, nível considerado suficiente para geração de energia, ao longo de 15 anos.

Vista aérea do Estreito de Ormuz. Foto: reprodução

Ao mesmo tempo, Trump enfrenta crescente pressão interna. O Partido Republicano vê os efeitos da crise energética desencadeada pela guerra com o Irã corroerem suas perspectivas para as eleições de novembro, quando estarão em disputa toda a Câmara dos Deputados e um terço do Senado.

Entre republicanos, já existe a percepção de que a maioria na Câmara pode estar perdida, como costuma ocorrer com o partido do presidente nas eleições de meio de mandato. O temor agora é que o custo político da crise alcance também o Senado, o que deixaria o governo enfraquecido e abriria espaço para um processo de impeachment.

Esse impasse ajuda a explicar as oscilações de Trump, que alterna anúncios de que um acordo está próximo com ameaças de retomada da guerra total. Uma fala serve para acalmar os mercados e os aliados; a outra, para pressionar Teerã. O problema, para Washington, é que a realidade no terreno segue favorável ao poder de barganha iraniano.

O Irã mantém capacidade de bloquear o Estreito de Ormuz, de atacar vizinhos árabes aliados dos Estados Unidos e de absorver politicamente mais desgaste do que o governo estadunidense. Teerã quer um acordo. Os bombardeios dos Estados Unidos e de Israel teriam causado prejuízos de cerca de US$ 200 bilhões, e o bloqueio naval asfixia uma economia fortemente dependente das exportações.

Ainda assim, o regime parece considerar duas coisas ainda mais importantes do que o fim imediato da guerra: não parecer rendido, preservando sua soberania, inclusive sobre o programa nuclear e os mísseis balísticos convencionais, e impor um custo alto o suficiente para desestimular novos ataques no futuro.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.