Aragão: uma comissão da verdade porá luz nas práticas mortais do populismo de Bolsonaro

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POR EUGÊNIO ARAGÃO, ex-ministro da Justiça

Todo cientista sabe que o conhecimento científico é provisório. A ciência não constitui sabedoria absoluta e nem fórmula mágica. É humana, por demais humana e, assim, falha e frágil. Mas, ainda assim, é uma conquista da civilização, é a vitória da razão sobre a especulação aleatória.

O cientista trabalha com método. Testa premissas e constrói conclusões. Não se deixa levar por mitos e crendices. As teorias elaboradas se preocupam com a reprodutibilidade de seus testes. E, enquanto não houver outra teoria testada que infirme os fundamentos da predecessora, esta prevalece. É o que se chama, desde Karl Popper, de falseabilidade teórica. Uma teoria científica vale enquanto não for falseada.

Quando a ciência sai da pesquisa de fundamentos para a atividade prática, seja para controlar, seja para mudar fenômenos que possam perturbar nossas rotinas e dificultar a vida, suas teorias passam a constituir um ativo econômico ou estratégico. Ou ambos.

É aí que a ciência entra em contato com a política, porque o conhecimento prático pode oferecer vantagens de poder de um grupo que o domina sobre outros que não o dominam. Os produtos do conhecimento passam a ter escassez e são disputados. Daí surgem sistemas de propriedade industrial que dificultam o acesso às conquistas científicas e lhes conferem valor econômico.

A disputa por conhecimento científico prático tem vantagens também, pois estimula a produção de novas pesquisas e novo conhecimento. Mas, quando um determinado produto dessas pesquisas possa fazer diferença entre salvar vidas e expô-las ao perecimento, disputar e escasseá-lo para auferir ganhos materiais ou políticos passa a ser eticamente insustentável.

Políticos administram a escassez do conhecimento científico prático. Tomam decisões para incentivar o avanço da ciência ou para freá-lo, seja porque determinado tipo de pesquisa é reputado urgente, seja porque têm outras prioridades de investimento. Em algumas áreas essas decisões podem ser fatais, como na medicina, quando podem ter impacto na saúde pública e na vida de muitas pessoas.

O pior cenário é quando a política populista tromba na ciência médica, informando decisões erráticas sobre profilaxia e terapia. A promessa de soluções fáceis para grandes problemas sanitários, não testadas por método científico e, daí, não reproduzíveis num ambiente real, pode frustrar a busca de antipatogênicos mais eficientes.

Quando cientistas advertem sobre a inconsistência das promessas oportunistas, passam a ser vistos como inimigos e seus diagnósticos publicamente deslegitimados.

Cria-se a falta de confiança no sistema de saúde e a tendência em massa de questionar suas recomendações. Calados os médicos – tachados, eles, de politiqueiros ou, pior, conspiradores a serviço de interesses ocultos -, a população parte para os palpites aleatórios sobre o enfrentamento do problema.

Haverá até quem, na mais inocente das hipóteses, aconselhe tônico capilar como antivirótico.

O dano que políticos provocam, ao desacreditar médicos que trabalham com cenários reais da atual pandemia, propondo, sem lastro em testes rigorosos de eficácia e eficiência, o uso maciço de cloroquina como garantia de prevenção e cura da Covid-19, é incalculável.

Sujeitam pessoas ao relaxamento de medidas de distanciamento social – afinal, o remédio contra o coronavírus está à mão – e contribuem para o alastramento da infecção.

Os perto de 80.000 mortos por Covid-19 no Brasil devem ser debitados na conta do populismo antimedicina. Não que não houvesse mortos se os populistas se calassem.

Mas a escala seria seguramente outra, pois se seguissem os conselhos de quem pesquisa com método, já teriam promovido barreiras sanitárias mais rigorosas contra a disseminação da doença. Teriam, mais cedo, levado a sério os diagnósticos de risco.

Mas, no Bolsonaristão, preferiram desqualificar a ciência e tratar a pandemia como inimiga política. A militarização da saúde foi consequência disso e o errático experimentalismo local substituiu a cooperação com órgãos técnicos de renome internacional. Só uma comissão da memória e da verdade para pôr luz sobre as práticas mortais do populismo nestes tempos.

Agora que milhares de vidas foram ceifadas e os médicos tratados como conspiradores, resta, para os que nos deixaram só as lágrimas e a recordação. Os familiares, porém, têm direito de saber porque foram e de quem é a responsabilidade de terem ido, para nunca mais se cair na tentação das soluções fáceis sem ouvir os especialistas da saúde.

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