Armação e fake news: PMs são acusados de forjar flagrante com camisetas de Lula em SP

Atualizado em 21 de outubro de 2026 às 23:48
Lula PM Piracicaba
Jovens detidos são escoltados pela PM em Piracicaba com camisetas de apoio a Lula. Foto: Reprodução

Uma operação da Polícia Militar de São Paulo contra o tráfico de drogas em Piracicaba, no interior paulista, tornou-se alvo de denúncias de uma possível armação policial com repercussão eleitoral. Familiares de um adolescente apreendido acusam PMs de terem colocado camisetas de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em três jovens detidos para associar a campanha do petista à criminalidade. O episódio ocorreu nesta quarta-feira (21), a quatro dias do segundo turno das eleições presidenciais.

A ação foi conduzida por equipes do 10º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM/I) e do 10º Batalhão de Ações Especiais (Baep), na comunidade Vitória Pantanal. Dois homens, de 21 e 24 anos, foram presos, enquanto um adolescente de 17 anos foi apreendido. Os três apareceram vestindo camisetas de apoio a Lula, mas a mãe do menor afirma que o filho não usava a peça quando foi abordado.

Segundo a versão apresentada pela PM, uma denúncia anônima informou que três homens com camisetas brancas em referência ao presidente comercializavam drogas em uma viela próxima a um bar na Rua Senador Saraiva. Um deles estaria armado. Durante a operação, os policiais afirmam ter apreendido 160 porções de cocaína, um revólver e R$ 340 em dinheiro.

A imagem dos detidos com as camisetas ganhou repercussão política após ser divulgada pelo senador eleito Guilherme Derrite (PP), que utilizou o episódio para defender a redução da maioridade penal. “Crime não pode ser relativizado. Nós seguimos defendendo leis mais duras, punição de verdade e REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL JÁ!”, escreveu o parlamentar no Instagram.

Mãe denuncia que policiais colocaram camiseta de Lula no filho

Edna Souza Barbosa, de 33 anos, mãe do adolescente apreendido, contestou a versão policial. Em entrevista ao Metrópoles, ela afirmou que o filho vestia uma regata azul no momento da abordagem e não tinha qualquer envolvimento com a campanha eleitoral.

“Meu filho estava com uma blusa azul regata, não estava com blusa de Lula. … Tudo molecada, tudo desandado, na vida errada, então não estão nem aí pra eleição. Ele não estava com a blusa, ele estava com outra blusa, mas não com blusa de Lula. Não porque era do Lula, não, mas porque ele não liga pra essas coisas”, declarou.

A mulher também denunciou agressões contra o adolescente e uma filha de 14 anos, que tentou se aproximar do irmão durante a operação. Embora reconheça que o filho estava envolvido com drogas, Edna afirma que a conduta dos policiais foi abusiva e questiona a finalidade da exposição dos detidos com material de campanha.

“Não estou falando que o meu filho estava certo. Não, jamais. Ele estava errado. Usando droga, fazendo o que não era para ser feito. Porém, não precisava eles reagirem da forma que reagiram. … E colocaram a camisa para ter ibope, para ter engajamento. Não sei qual foi a intenção deles”, afirmou.

Mulheres denunciam PMs que exigiram camisetas de Lula

Outro relato ocorrido na mesma comunidade levanta novas suspeitas sobre a origem das camisetas utilizadas na apresentação dos presos. Duas mulheres afirmaram que foram abordadas e intimidadas por policiais militares enquanto vestiam peças de apoio a Lula distribuídas pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).

Segundo as denunciantes, elas estavam a caminho do trabalho quando foram interceptadas por um PM, que exigiu seus documentos e fez comentários ofensivos sobre a identificação política das roupas.

“Aí ele falou: ‘Deixa eu ver essa blusa sua aí, que já me interessou, é partido vagabundo?’”, relatou uma das mulheres, que pediu anonimato.

O policial também teria perguntado se havia outras camisetas disponíveis. “Ele foi e perguntou: ‘Tem mais blusa dessa?’. Aí eu falei: ‘Só tem uma, por quê?’. ‘Nós vamos precisar de umas três’”, contou.

As duas mulheres afirmam que foram obrigadas a retirar as peças. O relato sobre a solicitação de três camisetas chama atenção porque corresponde ao número de jovens apresentados pela PM usando roupas de apoio ao presidente. A possível relação entre os episódios, porém, ainda depende de investigação.

Apeoesp promete levar denúncia à Ouvidoria da PM

As camisetas exibidas pelos detidos pertencem à Apeoesp, que participou, na manhã desta quarta-feira (21), de uma manifestação favorável à reeleição de Lula em Piracicaba. O ato foi organizado pelo movimento estudantil da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e reuniu estudantes, professores, funcionários e pesquisadores.

A presidente da Apeoesp, deputada estadual Professora Bebel (PT), anunciou que levará as denúncias à Ouvidoria da Polícia Militar e cobrará a identificação e a responsabilização dos agentes envolvidos.

“Nós vamos investigar isso até o último momento. Barato não vai ficar, isso eu garanto. Então é algo que nós vamos acompanhar, nós vamos fazer perícia, nós vamos buscar todos os meios para que isso seja investigado”, declarou.

As denúncias colocam sob questionamento a autenticidade da apresentação dos suspeitos com camisetas de Lula e o possível uso político da operação policial. Até o momento, os relatos apresentados não comprovam que houve uma ação coordenada para interferir na eleição, nem que as roupas foram efetivamente colocadas nos detidos pelos agentes. A apuração deverá esclarecer a origem das peças, as circunstâncias das abordagens e a conduta dos policiais.

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