Armar professores é o lado B de quem ainda não se satisfez com a carnificina. Por Carlos Fernandes

O chefe dos sem noção. Foto: Agência Brasil/EBC

Não tem jeito, a cada tragédia vivenciada (e estamos vivenciando-as com cada vez mais frequência) surgem dos esgotos os especialistas do nada que a tudo possuem soluções mirabolantes.

O parecer da vez vem inevitavelmente com a chacina de estudantes e educadores em Suzano, São Paulo, por uma dupla de ex-alunos que terminou com um saldo de pelo menos 10 mortos.

Capitaneada por um irresponsável que atende pela alcunha de Major Olímpio e imediatamente reverberada por um sem número de sem noções da internet cuja intimidade com o delicado assunto da segurança pública não passa da brilhante ideia de distribuir ainda mais armas para quem assim as queira, dá a termo que tudo poderia ser evitado, ou pelo menos “minimizado”, se professores e funcionários também estivessem armados.

É definitivamente a sobremesa para quem ainda não se saciou com o banquete de sangue que começa a fazer pano de fundo permanente no cotidiano de uma sociedade que definha na sua miséria moral e ética.

Fruto de um pensamento binário completamente alheio às experiências atestadas pela realidade dos fatos nos mais diferentes países do mundo, simplesmente desconhecem – ou ignoram – a obviedade matemática de que o aumento na quantidade de armas disponíveis em determinada sociedade implica necessariamente no aumento da violência e da mortandade de seus habitantes.

É primário, mas para quem possui gente como Olavo de Carvalho como orientador, a universidade se faz creche.

Fora tudo, ultrapassa as raias do absurdo minimamente cogitar que o municiamento de indivíduos completamente incapacitados e não-treinados para manusear um instrumento de alta letalidade pode, de qualquer maneira, reduzir os efeitos de um ataque dessas proporções.

O exemplo dado pelo próprio Jair Bolsonaro quando no passado foi vítima de um assalto em que bandidos levaram não só a sua moto, mas também a arma que carregava consigo, mostra a ineficiência da coisa. E olha que estamos falando aqui de um sujeito, em tese, treinado para lidar com situações da espécie.

Em sua própria defesa, o subtraído Bolsonaro sempre pode, e deve, alegar que não fez outra coisa senão seguir as orientações da própria polícia: a de jamais reagir.

E aqui chegamos a uma contradição em si.

Os dados internacionais que dão suporte à orientação de não revidar, provam, mundialmente, que a chance de você sair vivo de um evento de violência extrema aumenta exponencialmente se você não oferecer resistência.

Vir de militares, portanto, a ideia de armar cidadãos para que eles reajam a atos dessa natureza, contradizem frontalmente os dados oficiais dos quais possuem conhecimento e que norteiam para o caminho inverso.

É um contrassenso. Mas o que não é nesse governo?

Por tudo até aqui exposto, transformar profissionais da educação em potenciais assassinos, seja em decorrência de legítima defesa, seja por força de um descontrole emocional momentâneo dado o alto nível de stress a que são muitas vezes submetidos e, como querem, potencializados pelo fato de possuírem uma arma à sua disposição, atende tão somente ao impulso inconsciente de natureza vil para quem matar é a opção mais fácil para resolver conflitos.

Dois foram os que puxaram o gatilho na tragédia de Suzano.

Mas milhões foram os que, de uma maneira ou de outra, deram vazão para que jovens perturbados e marginalizados resolvessem por intermédio da violência, e não do diálogo e da compreensão, as suas frustrações.

 

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