
Mensagens encontradas pela Polícia Federal nos celulares do ex-governador Cláudio Castro (PL) e do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, mostram uma relação íntima, marcada por elogios pessoais, convites para encontros privados, tratamento informal e eventos exclusivos no Brasil e nos Estados Unidos.
Os diálogos fazem parte da investigação que apura suspeitas de corrupção, peculato e lavagem de dinheiro envolvendo investimentos bilionários do Rioprevidência em produtos financeiros ligados ao banco.
No relatório que embasou a operação de busca e apreensão da semana passada, a PF afirma que os registros analisados permitem concluir que Castro e Vorcaro mantinham “laços de amizade”. A defesa do ex-governador nega relação pessoal indevida e afirma que os contatos ocorreram em agendas oficiais, institucionais e encontros sociais e de networking. Também diz que os investimentos do Rioprevidência seguiram critérios técnicos, jurídicos e administrativos.
Uma das conversas ocorreu após Castro publicar nas redes um vídeo cantando uma música religiosa. Vorcaro elogiou: “Canta demais. Arrebentou”. Castro respondeu: “Você é meu amigo. Não conta. Hahahaha”. Para a PF, a troca ajuda a demonstrar a relação pessoal entre os dois.
Outro diálogo citado ocorreu antes de um jantar em Nova York pago pelo controlador do Banco Master, no Nusr-Et Steakhouse, restaurante conhecido pelos cortes de carne com folhas de ouro 24 quilates e pelo chef turco Salt Bae.
Antes de ir ao local, Castro escreveu: “Você não existe. Qual o nome do restaurante mesmo?” Segundo a PF, foi o segundo jantar custeado por Vorcaro para o então governador na cidade estadunidense.
No ano anterior, após visita ao mesmo restaurante, Castro agradeceu: “Amigo, foi uma experiência incrível.” Um minuto antes, o celular de Vorcaro recebeu notificação de compra aprovada de US$ 13.313, cerca de R$ 66 mil na cotação da época.
As mensagens também registram convites frequentes. Em 1º de março de 2025, durante o carnaval, Vorcaro chamou Castro para uma feijoada: “Fala, meu irmão. Tudo bem? Vamos nos ver essa semana algum dia. Amanhã vou fazer uma feijoada, se puder ir com a esposa.” Castro respondeu: “Fala, irmão. Manda o endereço que vou sim. Te dou um abraço lá.” Três dias depois, o banqueiro fez novo convite: “Hoje tem churrasco. Na casa”.
Em 8 de março, houve outra tentativa: “Vamos nos ver hoje. À noite. Tô fazendo almoço no Parque Lage. Se animar. Ciro deve ir”. Segundo a PF, a referência provavelmente era ao senador Ciro Nogueira, que depois informou não ter participado.
A investigação também cita conversas sobre o carnaval de 2025. Dois dias após o convite para a feijoada, Castro combinou de passar no camarote de Vorcaro na Marquês de Sapucaí para cumprimentá-lo. O encontro não teria ocorrido, mas os investigadores destacam que os dois se tratavam por “irmão”.
A relação incluiu ainda uma degustação de uísque no The Carnegie Club, em Nova York, em maio de 2024. Vorcaro convidou: “Hoje três e meia. Degustação de uísque”. Castro perguntou: “Que horas e onde?” O banqueiro respondeu: “Três e meia. Só homens. Serão 10 pessoas apenas”. Castro confirmou: “Eu vou”. Segundo a PF, o evento custou US$ 1.023.646, cerca de R$ 5,2 milhões, com aproximadamente R$ 3,4 milhões em uísques e R$ 328 mil em charutos e aluguel do espaço.
A PF também afirma ter identificado pelo menos duas reuniões entre Vorcaro e Castro no Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador do Rio. Nenhum desses encontros apareceu na agenda oficial do governo estadual, segundo os investigadores.
Para a Polícia Federal, reuniões, jantares e eventos privados eram frequentemente seguidos por aportes do Rioprevidência em letras financeiras ou fundos ligados ao Banco Master.
Ao todo, durante a gestão de Castro, cerca de R$ 3,7 bilhões foram investidos em operações relacionadas ao grupo controlado por Vorcaro. “Importa registrar que outros encontros foram realizados entre Cláudio Castro e Daniel Bueno Vorcaro, o que permitiu concluir que ambos mantêm laços de amizade”, escreveram os investigadores.






