Árvores se vingam e deixam Salles, o antiministro do clima, no escuro em SP. Por Leonardo Sakamoto

Atualizado em 12 de janeiro de 2024 às 17:35
Então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles posa diante de madeira apreendida no Pará. Foto: reprodução

Por Leonardo Sakamoto.

A casa do deputado federal Ricardo Salles (PL), ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, acusado de atuar a favor de desmatadores, ficou no escuro nesta semana após árvores caírem em seu bairro por causa de uma tempestade influenciada pela mudança do clima. Karma, castigo divino, terceira lei de Newton, ironia cósmica, vingança dos vegetais ou uma coincidência safada?

A informação, revelada por João Batista Jr, na revista piauí, mostra que a nobre rua do deputado, no nobilíssimo bairro do Jardim América, não passou ilesa pelo combo “evento climático extremo” + incompetência da Enel (responsável pela manutenção da rede elétrica) + inação da Prefeitura de São Paulo (que deveria zelar pela manutenção das árvores).

As tempestades e ventos fortes que atingem a capital paulista são consequência de um El Niño potencializado pela mudança do clima. Que, por sua vez, vem sendo bombada pela emissão de carbono na atmosfera – coisa que a gestão de Salles sobre o meio ambiente contribuiu com a alta do desmatamento e dos incêndios florestais.

Chefe da pasta ambiental entre janeiro de 2019 e junho de 2021, Salles tenta agora se viabilizar como o candidato da direita à Prefeitura de São Paulo. Contra ele, pesa a lembrança de que agiu para “passar a boiada”, para usar suas próprias palavras, contra as regras de preservação ambiental do país. E também as ações que responde na Justiça.

Em agosto do ano passado, a Justiça Federal no Pará tornou o deputado réu, acusado de participar de uma organização criminosa que atuava no envio de madeira retirada ilegalmente na Amazônia aos Estados Unidos. Em 2021, quando ainda era ministro, ele foi alvo de uma operação da Polícia Federal que apurou suspeitas de corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e facilitação de contrabando de madeira, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Por conta disso, demitiu-se do cargo. Mas o processo veio.

Ele foi um dos ministros mais eficientes de Bolsonaro. Sem chamar atenção por comportamentos circenses como seus colegas (com todo o respeito à séria instituição do circo), agiu para demolir a fiscalização do Ibama e do ICMBio, enquanto dizia ao Brasil e ao mundo que o meio ambiente estava protegido.

Jair Bolsonaro e Ricardo Salles. Foto: reprodução

A eficácia silenciosa do ministro ficou clara em uma reunião ministerial de 22 de abril de 2020, quando Salles recomendou ao seu chefe aproveitar a atenção da imprensa aos mortos e doentes pela covid-19 para enfraquecer as regras de proteção ambiental. O famoso “passar a boiada”.

Ele continua bem cotado entre círculos bolsonaristas, tanto que foi o quarto deputado federal mais bem votado em São Paulo, em 2022, e fez sucesso por sua atuação como relator da CPI do MST – criada para fazer barulho para ser consumido pelo agrobolsonarismo – no ano passado.

Mas o passivo que carrega por ajudar o Brasil a ser visto como pária ambiental global na gestão passada vem fazendo com que seja pesado demais para que o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, o apoiar em seu pleito de ser o candidato do partido à Prefeitura de São Paulo neste ano.

A avaliação é de que a candidatura de Salles, visto como extremista em uma capital relativamente progressista, ajudaria Guilherme Boulos (PSOL), deputado mais votado pelo estado e segundo colocado na eleição municipal de 2020. Claro que isso ainda pode mudar, uma vez que Ricardo Nunes não vem dando sinais de que vai defender o legado de Bolsonaro, condicionante imposto pelo ex-presidente para seu apoio.

As secas severas na Amazônia, as chuvas torrenciais no Sul, o calor recorde em todo o país e as tempetades apocalípticas em São Paulo lembram que, apesar de os ricos serem mais protegidos, todos sofrem com a mudança do clima.

O relato da rica rua de Ricardo resgata isso. Ou seja, no limite, não tem para onde fugir das consequências das nossas ações. Não como indivíduo, mas como sociedade.

Um alento é que, pelo menos, o tema da mudança do clima rompe a polarização política.

Para 72% dos eleitores de Lula no segundo turno do ano passado e 74% dos que votaram em Bolsonaro, as mudanças climáticas estão acontecendo principalmente por causa da ação humana, aponta pesquisa Genial/Quaest. Um empate técnico, considerando a margem de erro de 2,2 pontos.

Os dados da pesquisa mostram, portanto, que existe uma divergência entre a maioria do eleitorado de Bolsonaro e as lideranças bolsonaristas que negam ou menosprezam as mudança climáticas.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), por exemplo, postou em 14 de fevereiro deste ano: “A tal ‘mudança climática’ – antes alardeada como aquecimento global – é apenas o pano de fundo para que pessoas autoritárias como Lula se apossem de sua liberdade, obrigando você e sua família a viver como ele quer. Esta é única maneira, na cabeça dele, do socialismo dar certo”.

Não foi o único. Giovani Cherini (PL-RS) defendeu, em novembro, que o aquecimento global “não existe”. Na avaliação dele, o objetivo do alerta sobre a mudança climática “é o interesse internacional de escravizar agricultura brasileira de trazer máquinas elétricas para o Brasil e dizer que tudo isso é para preservação ambiental”.

As árvores e o clima deram o troco em Salles, deixando ministro de Bolsonaro no escuro? Talvez. O fato é que ele representa uma boa parte do Brasil. Alguns, como os bolsonaristas-raiz, são desavergonhadamente negacionistas. Outros vivem sob um verniz de conscientizados, enquanto repetem que “temos que reduzir a emissão de carbono, mas ainda não, porque a economia não vai aguentar”.

Publicado originalmente na coluna do Leonardo Sakamoto no Uol.

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