As 10 horas entre a ameaça de genocídio no Irã ao recuo de Trump

Atualizado em 8 de abril de 2026 às 7:19
Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: reprodução

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recuou do ultimato que havia feito ao Irã após passar a última terça-feira (7) ameaçando o país com ataques de destruição em massa, incluindo a possibilidade de aniquilar “uma civilização inteira”. Depois de horas de tensão internacional, ele anunciou na noite que suspenderia por duas semanas os bombardeios contra Teerã, em uma decisão condicionada à reabertura do Estreito de Ormuz.

O recuo foi seguido pela confirmação iraniana de um acordo temporário para restabelecer a passagem de navios pela rota, uma das mais estratégicas do planeta para o comércio de petróleo.

A terça-feira começou sob forte temor de escalada. Pela manhã, Trump publicou na Truth Social a ameaça mais grave desde o início da guerra.

“Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá. Contudo, agora que temos uma mudança de regime completa e total, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionário e maravilhoso possa acontecer, QUEM SABE? Descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo. 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente chegarão ao fim. Deus abençoe o grande povo do Irã!”, afirmou.

O prazo dado por ele terminaria às 21h, no horário de Brasília, e estava ligado à exigência de que o Irã reabrisse o Estreito de Ormuz, fechado por Teerã em resposta a ataques dos Estados Unidos e de Israel.

A reação iraniana foi imediata. O representante do país na ONU, Amir-Saeid Iravani, afirmou que as declarações de Trump “constituem incitação a crimes de guerra e potencialmente genocídio”.  Em sessão do Conselho de Segurança, ele declarou: “O Irã não ficará de braços cruzados diante de crimes de guerra tão graves. Exercerá, sem hesitação, seu direito inerente de autodefesa e tomará medidas recíprocas imediatas e proporcionais”.

Poucas horas antes da ameaça de Trump, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, havia reforçado o discurso de mobilização nacional. “Mais de 14 milhões de iranianos valentes já declararam, até este momento, estar prontos para sacrificar suas vidas em defesa do Irã. Eu também tenho sido, sou e continuarei sendo alguém disposto a dar a vida pelo Irã”, afirmou em publicação no X.

Enquanto o prazo corria, os ataques continuaram. A ilha de Kharg, responsável por cerca de 90% do petróleo exportado pelo Irã, voltou a ser bombardeada pelos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, países do Oriente Médio relataram novos ataques iranianos.

Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos disseram ter sido alvos de mísseis e drones lançados por Teerã poucas horas antes do fim do ultimato.

Em paralelo, o governo iraniano convocou a população a defender a infraestrutura do país. Na província de Fars, centenas de pessoas formaram um cordão humano em torno da usina termoelétrica de Kazeroon. “As usinas de energia são nossos ativos e capital nacional”, afirmou Alireza Rahimi, identificado pela televisão estatal como secretário do Conselho Supremo da Juventude e dos Adolescentes.

Manifestação no Irã
Manifestação no Irã – Reprodução

A ameaça de Trump provocou reação internacional e também críticas dentro dos próprios Estados Unidos. O secretário-geral da ONU, António Guterres, manifestou preocupação por meio de seu porta-voz: “O secretário-geral está muito preocupado com as declarações que ouvimos ontem e novamente esta manhã, declarações que sugerem que todo um povo ou toda uma civilização poderiam ser obrigados a suportar as consequências de decisões políticas e militares”.

O senador republicano Ron Johnson disse que um bombardeio contra infraestrutura civil iraniana seria “um grande erro”. A ex-vice-presidente Kamala Harris classificou as ameaças como “abomináveis”, enquanto o Papa Leão XIV declarou: “A ameaça contra o povo do Irã é inaceitável. Há questões de direito internacional, mas muito mais do que isso, é uma questão moral”.

A reviravolta veio às 19h32. Em nova postagem, Trump afirmou: “Concordo em suspender o bombardeio e o ataque ao Irã por um período de duas semanas. Este será um CESSAR-FOGO de dois lados”.

O presidente atribuiu a decisão a um pedido de autoridades do Paquistão, que vêm mediando conversas indiretas entre Washington e Teerã. Logo depois, o chanceler iraniano Abbas Araghchi confirmou o acordo e disse que o Irã suspenderá suas ações defensivas se os ataques contra o país forem interrompidos. Também informou que a passagem pelo Estreito de Ormuz será segura durante a trégua, ainda que sob certas condições técnicas.

Segundo o governo iraniano, os Estados Unidos aceitaram discutir a partir de um plano de 10 pontos elaborado por Teerã. A mídia estatal do país classificou o desfecho como um “recuo humilhante de Trump”, enquanto a Associated Press informou que a versão em inglês da proposta iraniana omitia um ponto sensível presente no texto em farsi: a “aceitação do enriquecimento” no programa nuclear do país.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.