As bailarinas do Faustão e a cultura do abatedouro de mulheres por causa da idade. Por Nathalí Macedo

Bailarinas do Faustão. Foto: Divulgação

Não deve ser fácil ser uma bailarina do Faustão: primeiro porque as coreografias são ridículas, segundo porque você tem que ouvir “Ô loco” cerca de trinta e duas vezes em um dia, e principalmente porque, para elas, a ditadura da magreza e da juventude aparentemente é ainda mais cruel do que sempre foi para todas as mulheres.

Em 2013, por exemplo, Kamilla Covas, ex-bailarina, foi “demitida por excesso de peso”. Nota: Ela estava grávida. O caso rendeu certa polêmica que, como toda polêmica, logo cessou. Agora, imagine: você passa quatro anos em uma universidade de dança, faz especialização e o escambau, e, no auge da sua carreira, é demitida por “excesso de peso.” É dose pra elefante.

Recentemente, foi a vez de Raquel Guarini, Bruna Padovani, Thais Santiago, Juju Fructuoso e Rachel Drodowsky serem demitidas ao passarem dos 30 anos.

Bruna Padovani. Foto: Divulgação

A ditadura da juventude ainda escraviza mulheres que não são enxergadas em suas potencialidades que vão além dos atributos físicos. 

Em nota, a produção do programa disse que “a renovação do quadro de bailarinas acontece periodicamente e nada tem a ver com idade, mas sim com a dinâmica artística de um programa com tanto tempo no ar, que evolui naturalmente em todas as suas áreas (bailarinas, quadros, etc.)”.

Senta lá, Cláudia. 

Todo mundo sabe que o Domingão do Faustão descarta suas bailarinas quando elas já não estão tão jovens ou tão magras assim – aliás, o que esperar de programas de auditório que usam mulheres como itens de decoração? –, como inclusive noticiou hoje a imprensa. 

Não é difícil acreditar nisso, sobretudo sabendo que a rotatividade do balé do Faustão beira o vertiginoso, e outras histórias de demissões por gravidez, excesso de peso ou avanço da idade já existiram muitas vezes ao longo dos tantos anos em que o programa está no ar. Os exemplos que citamos aqui são apenas alguns entre muitos. 

Além de Kamilla Covas, como esquecer de Aline Riscado, ex-bailarina que teve a demissão anunciada ao vivo (precisava, Seu Fausto?), e, dizem, foi chorar no banheiro? 

Além disso, nenhuma das bailarinas demitidas se atreveu a comentar o fato, o que deixa no ar um silêncio constrangedor. 

Que semi famosa no Instagram sairia do emprego em um programa de TV clássico e não avisaria aos seus seguidores?  Estranho, para dizer o mínimo. 

A única a comentar a demissão, que chamou de “afastamento”, foi Raquel Guarini, em um vídeo no Stories no Instagram (aqueles que somem depois de vinte e quatro horas, porque, diria a minha avó, seguro morreu de velho), e aproveitou para avisar sobre novos projetos enquanto seus seguidores seguem sedentos por informações mais precisas sobre a demissão – as quais, aparentemente, nem Raquel nem suas ex-colegas podem expor. 

“Muita coisa nova, vocês vão curtir, tudo muito bem pensado e elaborado para mim e para vocês. Estou muito ansiosa”, disse, ao comentar os rumos que dará à sua carreira na difícil fase pós Faustão. 

O Domingão do Faustão é como um abatedouro de mulheres: exploram-nas por salários ridículos enquanto são jovens, e chutam-nas quando já não estão tão novinhas assim – você sabe, é preciso agradar ao espectador tradicional das tardes de domingo. 

Ainda bem que ainda há artistas que não se dobram a esse tipo de ditadura e envelhecem com dignidade, fazendo o que de melhor sabem fazer: sua arte. 

Madonna, por exemplo, aos 60, continua batendo em muita novinha por aí. Porque – como alguns homens jamais entenderão – mulheres não são só os seus atributos físicos e nem possuem de valioso apenas a juventude. 

Porque a essas moças, sugadas pela Rede Globo, o que sempre resta no fim das contas é prêmio de consolação mais deprimente possível: a esperança ser escolhida para participar da dança dos famosos, aquele quadro feito pra ressuscitar quem já não é tão famoso assim. 

Triste fim. 

Raquel Guarini. Foto: Divulgação

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