
Série “Os quatro picaretas”, Parte 5 · a rota da fuga e os autos da Justiça americana
Flávio Bolsonaro, candidato derrotado à Presidência da República, fugiu para os Estados Unidos a bordo de um jato executivo Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW. A aeronave pertence à empresa argentina de táxi aéreo Baires Fly, decolou de Buenos Aires com o senador, a esposa e as duas filhas, fez escala técnica no Equador e pousou em Miami.
Uma reportagem do jornal The New York Times revelou que a operação aérea para retirar o filho de Jair Bolsonaro da América do Sul foi articulada em Washington por Jason Miller, braço direito de Donald Trump, após contatos com Eduardo Bolsonaro. Pouco depois, o próprio Miller confirmou ter providenciado o avião usado na viagem, enquanto o dono da companhia argentina informou que o voo de 150 mil dólares foi pago por um intermediário oculto nos Estados Unidos.
Na chegada à Flórida, o senador entrou em solo americano com uma permissão especial temporária concedida pelo governo Trump, driblando o cerco judicial no Brasil enquanto tenta obter residência permanente. O homem que arranjou o jatinho da fuga não é um simples consultor de campanha, mas um operador político que responde na Justiça americana por dinheiro desviado de uma fraude bilionária, ocultação de renda, ameaças a juízes e acusação de estupro.
O golpe bilionário de Miles Guo e os 353 mil dólares na conta de Jason Miller
Para entender quem é Jason Miller, é preciso abrir os processos que correm contra ele na Justiça de Falências de Connecticut. Entre junho de 2021 e fevereiro de 2023, Miller foi o executivo-chefe da Gettr, a rede social criada para servir de megafone ao trumpismo e ao bolsonarismo.
Miller dizia em público que a plataforma tinha independência financeira, mas o negócio era bancado pelo golpista chinês Miles Guo, também chamado de Ho Wan Kwok, preso nos Estados Unidos desde março de 2023. Em 29 de junho deste ano, a juíza federal Analisa Torres, de Manhattan, condenou Miles Guo a 30 anos de cadeia e decretou um confisco de 889 milhões de dólares por comandar uma fraude que roubou mais de 1 bilhão de dólares de milhares de pequenos investidores.
Com o dinheiro roubado das vítimas, Guo comprou mansão de 26 milhões de dólares, iate de luxo e carros esportivos, além de abastecer a rede comandada por Jason Miller por meio de empresas de fachada. Sob a gestão de Miller, a Gettr chegou a ser usada pelo grupo de Guo para publicar os endereços residenciais e fotos da família do administrador judicial do caso, convocando um cerco de 90 dias na porta das casas para intimidar a Justiça americana.
Quando a fraude ruiu nos tribunais, o administrador judicial nomeado pela corte de Connecticut, Luc A. Despins, rastreou o dinheiro desviado e processou tanto a plataforma quanto seu ex-presidente. Em 19 de maio de 2026, a Gettr foi condenada à revelia pela juíza Julie Manning a devolver 35,6 milhões de dólares, cerca de 192 milhões de reais, transferidos por fundos fantasmas de Guo depois que o bilionário já havia pedido falência.
Já Jason Miller foi processado pessoalmente pelo administrador judicial para devolver 353.269 dólares, perto de 1,9 milhão de reais, que caíram direto na conta particular dele na Virgínia. Os depósitos saíram das empresas de fachada Lexington e HCHK Technologies numa época em que Guo jurava aos juízes ter apenas 3.850 dólares no banco.
Para tentar escapar da devolução do dinheiro às vítimas, Miller alegou ao tribunal que a planilha com as datas dos depósitos na conta dele estava sob sigilo judicial. A juíza respondeu por escrito que bastava o próprio Miller pedir a abertura do documento para torná-lo público, mas ele jamais fez o pedido e manobrou em abril deste ano para empurrar o julgamento a um júri popular na corte distrital.
A parceria com Paulo Figueiredo e os relatórios secretos enviados a Miller
Na defesa entregue à Justiça americana, Jason Miller jurou que o dinheiro recebido da fachada HCHK não tinha ligação com o esquema de Miles Guo. Essa versão desmoronou quando o administrador judicial processou outro recebedor da mesma firma fantasma, o foragido brasileiro Paulo Figueiredo, parceiro de Miller na implantação da Gettr no Brasil.
Antes de se instalar na Flórida, Figueiredo já havia sido denunciado no Brasil por comandar o pagamento de propinas e contratos com notas frias no caso do Trump Hotel Rio, deixando um rombo de 348 milhões de reais no banco estatal BRB e recebendo depois uma multa de 102 milhões de reais na CVM. Mesmo com esse prontuário, Jason Miller assinou de próprio punho, em 25 de agosto de 2021, um contrato pagando 35 mil dólares por mês à empresa de Figueiredo nos Estados Unidos, a International Treasure Group, num total de 140 mil dólares.
A empresa de Figueiredo ignorou as citações da Justiça americana por mais de um ano e foi condenada à revelia, em 30 de outubro de 2025, a devolver os 140 mil dólares recebidos da fachada HCHK. Em dezembro do ano passado, ao pedir a anulação da sentença sob juramento, Figueiredo alegou que não viu as intimações porque as cartas ficavam largadas na cozinha de sua casa na Flórida e porque passava longas temporadas em Washington articulando sanções contra autoridades brasileiras.
Nesse mesmo depoimento juramentado, para provar que havia trabalhado de verdade em troca do dinheiro, Figueiredo confessou à corte que a HCHK era uma entidade afiliada da Gettr, destruindo a linha de defesa de Jason Miller. O brasileiro ainda anexou aos autos os relatórios semanais confidenciais que enviava diretamente a Miller no final de 2021, expondo as ordens pessoais do estrategista americano para interferir na política brasileira.
Pelos documentos entregues ao tribunal, Miller e Figueiredo usaram o caixa da plataforma para comprar pacotes publicitários na imprensa bolsonarista, incluindo inserções na Jovem Pan negociadas pelo próprio Figueiredo enquanto ele atuava como comentarista da emissora. O relatório de 4 de dezembro de 2021 traz ainda o carimbo de aprovação pessoal de Jason Miller para patrocinar o evento Brasil Profundo, organizado pelo instituto de Eduardo Bolsonaro, além de encontros de parlamentares bolsonaristas e de médicos defensores do chamado tratamento precoce na pandemia.
O plano aprovado por Miller previa recrutar mais de cem influenciadores pagos e cooptar agentes públicos no Brasil, chegando a registrar a indicação, feita pelo então secretário Felipe Pedri, de uma servidora de uma agência federal brasileira que trabalharia para a Gettr sem largar o cargo no governo. Os papéis mostram também que um artigo assinado por Miller na imprensa brasileira em novembro de 2021 foi planejado pela dupla como escudo jurídico preventivo contra futuras decisões da Justiça do Brasil.
Dois registros do relatório de dezembro de 2021 revelam o método de Jason Miller sem retoques. No primeiro, Figueiredo propôs que a Gettr financiasse uma pesquisa de intenção de voto para a eleição presidencial de 2022, mas anotou que Miller deu ordem expressa para esconder a pesquisa caso os números fossem desfavoráveis a Jair Bolsonaro.
No segundo registro, Miller ordenou que a equipe brasileira passasse a procurar eventos de criptomoedas no final de 2021. Naquele exato momento, Miles Guo fraudava investidores nos Estados Unidos vendendo pacotes que misturavam 5% de participação na Gettr com 5% da moeda digital fictícia Himalaya.

Ocultação de renda, ameaças a juízes e o banco dos réus por estupro
Esconder o caminho do dinheiro é um hábito antigo na carreira do lobista que providenciou o avião de Flávio Bolsonaro. Em 2019, três dias após assinar um contrato secreto de 500 mil dólares anuais por meio de uma empresa de prateleira, Miller compareceu a uma vara de família da Flórida, declarou ter sofrido queda brusca de renda e conseguiu reduzir a pensão alimentícia do próprio filho.
Em 2020, novos documentos mostraram que a campanha de Donald Trump pagava a Miller 35 mil dólares por mês camuflados por uma antiga empregadora para driblar o juízo de família, enquanto ele recebia outros 20 mil dólares mensais de uma organização de Steve Bannon investigada por fraude. Quando a manobra contábil não funciona, ele parte para a intimidação aberta contra magistrados.
Em fevereiro de 2026, Miller anunciou para seus 625 mil seguidores nas redes que usaria todos os seus contatos políticos em Washington para barrar a promoção do juiz Spencer Multack, de Miami, que abandonou o processo de pensão quatro horas depois da ameaça. Foi esse mesmo método de chantagem que Miller usou contra o Supremo Tribunal Federal na campanha pelo tarifaço, quando publicou um alvo sobre o nome de Alexandre de Moraes com a frase “Libertem Bolsonaro… ou então”, anos depois de ter sido detido e interrogado pela Polícia Federal no aeroporto de Brasília no inquérito das milícias digitais.
O histórico de Miller nos tribunais americanos inclui ainda acusações graves de violência contra mulheres. Em 2018, veio a público uma petição judicial que o acusava de ter misturado uma pílula abortiva escondida na vitamina de uma mulher na Flórida, provocando a perda do feto e deixando a vítima à beira do coma.
Miller processou o grupo de mídia que divulgou o documento judicial pedindo 100 milhões de dólares, mas perdeu em todas as instâncias federais e terminou condenado a pagar os honorários dos jornalistas. Durante o processo, os autos revelaram que ele próprio admitiu sob juramento ter contratado prostitutas e mantido casos extraconjugais com subordinadas de campanha.
Uma dessas subordinadas, a advogada e ex-porta-voz da campanha republicana de 2016 Arlene “A.J.” Delgado, mãe do filho que ele tentou privar de pensão na Flórida, moveu uma ação na Suprema Corte de Nova York acusando Miller de coerção, estupro e agressão sexual. Em 17 de setembro de 2026, há pouco mais de um mês, a Divisão de Apelações da Suprema Corte de Nova York rejeitou o recurso de Miller e determinou que ele enfrente o julgamento pelas denúncias de violência sexual, ataque físico e abuso emocional.
Como o comitê de campanha de Trump fechou um acordo financeiro confidencial com Delgado em maio deste ano para sair do processo, Jason Miller ficou sozinho no banco dos réus. É esse o personagem que estendeu o tapete vermelho e arranjou o jatinho para a fuga de Flávio Bolsonaro.

Quem pagou os 150 mil dólares do jatinho de Flávio Bolsonaro?
Resta a pergunta financeira que liga o avião da fuga aos cofres invisíveis de Washington. Nos Estados Unidos, Jason Miller atua como lobista profissional registrado no Departamento de Justiça para defender o governo da Índia, recebendo 150 mil dólares por mês da embaixada indiana.
Nos relatórios entregues ao governo americano em junho deste ano, Miller declarou cada telefonema que deu em nome da Índia para autoridades da Casa Branca, incluindo treze ligações para Jamieson Greer, o chefe comercial que comandou o tarifaço contra o Brasil. Para o cliente indiano, tudo tem contrato público e valor declarado.
Já para a família Bolsonaro, não existe um único dólar registrado nos órgãos oficiais dos Estados Unidos. Ninguém declarou quem pagou o lobby pelas sanções contra o Supremo nem quem desembolsou os 150 mil dólares do jatinho que tirou Flávio Bolsonaro da América do Sul.
A trajetória de Jason Miller ao lado de Miles Guo, Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro mostra que, nessa rede, nenhum avião decola de graça. Quando a contabilidade secreta finalmente vem à tona nos tribunais, a fatura costuma sair de alguma fraude milionária ou da soberania do próprio país.
Publicado originalmente em O Cafezinho