As contradições da Procuradoria sobre a truculência da Lava Jato na investigação do sítio de Atibaia. Por Joaquim de Carvalho

O sítio, os policiais federais e o procurador Paludo: é preciso investigar as denúncias de truculência da Lava Jato

O advogado Rodrigo Tacla Durán, que prestou serviços para a Odebrechet e hoje mora na Espanha, se manifestou no Twitter sobre as explicações do Ministério Público Federal a respeito do depoimento da mulher de um autônomo que mora em Atibaia, irmão do caseiro do sítio de Fernando Bittar, que Lula e Marisa frequentavam.

Reproduzo o tuíte de Tacla Durán mais adiante, mas antes vamos relembrar o caso.

Na semana passada, esse profissional, um homem simples, chamado Lietides Pereira Vieira, prestou depoimento ao juiz Sergio Moro, como testemunha de Fernando Bittar. Ele contou que a mulher foi levada de casa para o sítio, juntamente com o filho de 8 anos.

Moro foi pego de surpresa com as declarações. Relatos da truculência do Ministério Público e da Polícia Federal na apuração do caso do sítio de Atibaia já eram de conhecimento público, pois haviam sido noticiadas em 2016 pelo site Conjur.

Mas o relato feito em audiência, gravado em vídeo, deu outra dimensão ao caso. E Moro, sem alternativa, cobrou explicações do Ministério Público.

Estas explicações foram enviadas nesta semana. Na sua manifestação, o MP contraria o que disse Lietides, mas é evasivo e contraditório em vários momentos. Informou, por exemplo, que o comparecimento da mulher do caseiro foi espontâneo. 

“Tendo havido comparecimento voluntário, não há que se falar em condução coercitiva, mesmo porque recusa não houve por parte da testemunha em prestar depoimento, mas sua concordância com a adoção de procedimento que lhe era mais favorável”, disseram os procuradores.

Os integrantes do Ministério Público Federal afirmaram também que não têm certeza se o filho acompanhou a mãe no depoimento. “Ainda que não haja certeza por parte do MPF quanto a esse fato”.

Segundo eles, se trataria de decisão da própria mãe, sem nenhuma interferência do Ministério Público ou dos policiais de apoio. Na versão deles, se a criança foi, é porque a mãe quis.

Ora, senhores procuradores, se não têm certeza se a criança foi levada com a mãe, perguntem aos policiais federais e o procurador que, segundo o marido da testemunha e pai da criança, tiraram os dois de casa, de manhã bem cedo, para levar ao sítio de Atibaia, sem o consentimento dela.

Eles podem negar ou confirmar. Simples assim. Mas, quando se quer esconder a verdade, as coisas ficam complicadas. Esse é o drama do mentiroso.

Se a criança foi, é porque a mãe não teve outra alternativa, o que derruba a versão de comparecimento espontâneo. Se fosse espontâneo, ela teria deixado o filho com alguém — se preparado para isso. A presença da criança confirma que a ação pode, no limite, ser entendida como sequestro.

Havia mandado?

Nas explicações prestadas ao juiz Moro, não deixam isso claro. Mas é certo que não havia, porque, se houvesse, teriam mencionado. Eles usam de esperteza.

Em seu depoimento, o pai deu detalhes da ação, num depoimento em que demonstra que é um homem simples, de pouca instrução formal, mas faz uma descrição pormenorizada, o que é natural — uma vítima da truculência não esquece fácil o que fizeram seus algozes.

“Eles foram na minha casa no dia 4 de março de 2016. Eram 6 horas da manhã, e eu levantei para fazer o meu café e escutei palmas no quintal. Quando eu abri a porta para ver, estava a Polícia Federal na porta da minha casa. Eu sei que era a Polícia Federal porque vi o distintivo na viatura. Eles estavam armados (fez gesto como se estivessem com fuzil ou metralhadora), de roupas do Exército, camuflada, e com armas na mão (repete a informação e o gesto)”, relatou.

Os policiais pediram para falar com Helena e ele informou que não morava nenhuma Helena ali. Sempre de acordo com o relato de Lietides, os policiais foram embora e, cinco minutos depois, voltaram e, num tom de intimidação — ele disse que ficou até com medo —, insistiram:

— Eu quero falar com Helena.

Ele respondeu: “Aqui não mora nenhuma Helena”.

Um dos homens armados de roupa camuflada, então, perguntou:

— Como se chama sua esposa?

O profissional autônomo respondeu:

— Minha esposa se chama Rosilene.

E o homem fardado com metralhadora ou fuzil na mão perguntou mais uma vez:

— Como as pessoas costumam chamá-la?

A testemunha respondeu:

— Chamam de Lena.

Os homens disseram que precisavam falar com ela.

— Ela está dormindo — respondeu Lietides.

— Acorda ela — ordenaram os homens fardados.

Rosilene (ou Lena) levantou de pijama e foi até a porta.

— Viram um documento dela, anotaram, e foram embora, não sei para onde.

A testemunha conta que precisou sair, ir para o médico.

— Quando estou na cidade, minha esposa me liga.

Ela contou que estava no sítio, com os policiais.

Ele soube mais tarde que, depois que saiu, os policiais voltaram e levaram a mulher e o filho pequeno ao sítio.

O advogado de Fernando Bittar perguntou:

— Por que ela concordou em ir para o sítio?

A testemunha disse:

— Não é que ela concordou, eles levaram ela.

O advogado perguntou se alguém se identificou. A testemunha disse, então, que a mulher mencionou um nome.

— Dr. Palumbo, Paludo, uma coisa assim — afirmou.

Trata-se de Januário Paludo, procurador da república, integrante da Lava Jato, procurador já com pelo menos 22 anos de Ministério Público — sei disso porque o entrevistei em 1996, quando eu era repórter de Veja e ele, procurador lotado em São Paulo, na época apurando um caso no Ministério da Saúde.

Lietides contou ainda que, depois que a mulher foi levada ao sítio, onde ela não morava nem tinha trabalho fixo, apenas fazia faxinas esporádicas, teve que levar o filho de 8 anos à pediatra. “Ela faz tratamento psicológico, adoeceu”, relatou.

Na parte mais marcante do depoimento, Lietides afirmou que o filho dormiu abraçado ao pai, com medo. Quando prestou essas declarações na audiência a Moro, ele fez o gesto com os braços pressionando o pescoço, para explicar como a criança dormiu.

São cenas que descrevem as consequências de uma ação abusiva, feita por homens em nome do Estado brasileiro. É grave.

Tacla Durán

Tacla Durán, que também relata em livro que está escrevendo a pressão dos procuradores sobre ele e também sobre sua família, foi ao Twitter, para comentar:

—Perderam o respeito até pelas crianças! Isso é crime! Infração aos arts 230 e 232 – Estatuto da Criança e do Adolescente — afirmou.

Relatos de abuso da Lava Jato estão se tornando comuns. Seja pelas manifestações de teor político nas redes sociais dos procuradores, seja pela denúncia de provas forjadas apresentadas por eles, seja pelas delações que não são espontâneas, seja pela denúncia de que existem acertos (corrupção) para manipular depoimento de delatores.

É preciso passar a limpo todas essas histórias e o caminho natural é a CPI, independente do Judiciário. Não é uma CPI da Lava Jato, como a velha imprensa tem dito, para blindar seus aliados no Ministério Público Federal. É uma CPI para verificar denúncias de corrupção em torno das delações ou, em palavras mais amenas, apurar o que pode ser chamado de indústria da delação premiada.

Mas não seria ruim se esta CPI apurasse também outras denúncias de abuso, como esta que envolveu a família de Lietides Pereira Vieira.

Quando a CPI for instalada — se se conseguir vencer o lobby da velha imprensa —, o trabalho será árduo. A Lava Jato é como uma semente que floresceu, deu alguns frutos bons, mas envenenam a sua raiz e hoje os frutos colhidos estão podres, não prestam mais.

Para salvar a árvore contaminada, é preciso fazer uma poda severa — cortar galhos podres e Marcelo Miller, ex-procurador da república, denunciado esta semana por corrupção, está longe de ser um caso excepcional.

Só tirando os frutos podres é que talvez seja possível salvar algo da operação, que ao fim e ao cabo tem se mostrado como parte de uma estratégia feita para pegar Lula.

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