As conversas de papai comigo no final de sua vida

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Um novo trecho de “Minha Tribo — o jornalismo e os jornalistas”

No fim de sua vida breve, meu pai deu para conversar bastante comigo sobre jornalismo. Eu estava começando a vida de jornalista.  Papai era um homem naturalmente calado. Lembro os percursos pela cidade, em nosso carro, em que papai ficava em silêncio, o rádio ligado no noticiário da Jovem Pan.

Sempre que me perguntei a razão das súbitas conversas jornalísticas de papai comigo, a resposta que me pareceu mais adequada é que ele queria me preparar para as realidades das redações e mostrar que as coisas nem sempre são o que parecem a jovens sonhadores como são os jornalistas iniciantes.

Uma das histórias que ele contou era sobre a entrada na Folha de um jornalista que, nos anos 60 e 70, marcaria profundamente o jornal: Claudio Abramo. Claudio durante algum tempo fora vizinho nosso num bairro de classe médio cheio de jornalistas. Minha mãe gostava de lembrar cenas como a de Claudio descendo a José Rubens, nossa rua, num carrão vistoso para os padrões da época para depois ficar a pé pouco adiante da esquina. Os carros eram bem menos confiáveis no começo dos anos 60.

Claudio era um jornalista singularmente talentoso e charmoso. Bonito como um ator de cinema europeu, voz rouca e forte, carismático, movimentava-se com uma bengala. Jamais entendi bem o que seja trotsquismo, mesmo tendo lido muita coisa de Trotski e (mais de uma vez) a trilogia célebre de Isaac Deutcher (O Profeta Armado, O Profeta Desarmado, O Profeta Banido), mas Claudio era trotsquista. Também Paulo Francis se dizia trotsquista antes de aderir a um neoconservadorismo pândego e radical nos anos 80.

Nos anos 50, Claudio fizera uma carreira interessante no Estado de S. Paulo, de onde acabaria demitido ao se desentender com a família. A vida para um jornalista de São Paulo, naqueles dias, se resumia basicamente ao Estado, líder, e à Folha. Claudio não vivia um bom momento profissional depois de sair do Estado.

Papai votou para que Claudio fosse contratado

Frias, quando comprou a Folha no início da década de 1960, mal conhecia o jornal. Era leitor fiel do Estado. Isso fazia de Claudio um nome naturalmente interessante para ele. Mas o que fazer com ele? A redação da Folha tinha um comando estabelecido, um conselho liderado por um dos mais brilhantes jornalistas do país, José Reis, um profissional que mesclava integridade com um conhecimento enciclopédico derivado de sua segunda vida como cientista.

Eram cinco os membros do conselho. Papai, então na faixa dos 30, era um deles. A admiração que votava a Reis — padrinho de um de meus irmãos — era recíproca. Na morte de papai, Reis escreveu o mais tocante obituário entre tantos que foram escritos. “Sofri muito, quase desesperei”, afirmou ele em sua coluna dominical na Folha. “Mas depois pensei que o céu deve estar em falta e Deus chama os melhores.”  Passados 30 anos, lembro trechos do artigo de Reis sobre papai de cor.

Papai estava afastado do comando quando Reis assumiu. Era comum naqueles tempos, antes que o Fundo de Garantia tornasse mais simples as demissões. “Logo notei as idéias de um rapaz que tinha 20 anos menos que eu mas parecia ter 20 mais, pela sabedoria”, lembrou Reis. Reis reabilitou papai na redação. Eram parecidos. Introspectivos, intelectuais, padrões de integridade singularmente elevados.

Reis montou um comitê editorial para tocar o jornal. Frias um dia submeteu a esse grupo uma questão: o que eles achavam de contratar Claudio Abramo?

Claudio vinha, informalmente, fazendo leituras críticas da Folha para Frias. Nabantino, o dono anterior, não precisava disso para entender o jornal, mas Frias sim. Ele tinha uma granja e a rodoviária de São Paulo. O sócio de muitos anos, Carlos Caldeira, oriundo de Santos e sempre de branco como se fosse integrante da delegação do Santos de Pelé, também estava longe de ter familiaridade com o jornalismo. Eram homens práticos, formados na chamada universidade da rua.

É um sinal dos tempos que Frias submetesse uma contratação a um grupo. Provavelmente isso jamais voltaria a se repetir. Logo Frias estaria confortável em sua posição de dono.
Claudio era um jornalista controverso. O quinteto de jornalistas se dividiu. Cabia a papai o voto decisivo. Sorte de Claudio. Papai gostava de Claudio como jornalista, mas, acima de tudo, jamais votaria contra a contratação de alguém.

Foi assim que Claudio entrou na redação da Folha, na qual cresceria rapidamente. Claudio tinha uma cultura basicamente estrangeira. Papai lhe apresentou Machado de Assis, me contou, há pouco tempo, a filha mais velha de Claudio, Barbara Abramo, astróloga da Folha. Tão extravagante era Claudio que ele batizou Barbara e Berenice com o sobrenome Abramo Abramo. Isso porque ele se casara, pela segunda vez, com uma sobrinha, Radha Abramo. Mamãe gostava de lembrar a cena de Radha cantando na rua A Marselhesa numa visita ao Brasil de De Gaulle.

Claudio era bem mais corporativo que papai. Não fez, por exemplo, a greve de 1979. Como muitos homens de esquerda, achava que em certas ocasiões tinha que fazer o jogo do patrão para poder ajudar, com o poder preservado, a causa. Papai simplesmente agia de acordo com a consciência, sem considerações metafísicas. Tinham uma relação de mútua admiração, embora diferentes em muitos aspectos, a começar pelo cuidado com que se vestiam. De papai herdaria um desleixo invencível.

Caldeira, sócio de Frias: universidade da vida

Nas conversas comigo em seus últimos anos, papai me contou uma história exemplar não em tom reprovatório, mas apenas para me retirar ilusões que pudessem me prejudicar. Numa greve de fome de presos políticos, Frias pediu a papai que escrevesse um editorial que dissesse que não havia presos políticos. Papai recusou. O editorial no dia seguinte saiu, escrito por Claudio, que ao longo da greve passava por meu pai na redação e comentava sempre o quanto estava preocupado com seus amigos em greve de fome.

Papai era um cara muito diferente.

Claudio era prático, tanto quanto o próprio Frias. Uma década depois, quando o regime militar pediu a Frias a cabeça de Claudio Abramo, ele a entregou. Colocou em seu lugar, astutamente, um editor que tinha bom trânsito com os militares: Boris Casoy.