“As crianças negras têm o azar dos mal-entendidos sempre acontecerem com elas”

Duran e seu filho
Duran e seu filho

 

Jonathan Duran, pai do menino discriminado em uma loja na luxuosa rua Oscar Freire, em São Paulo, foi certeiro ao lembrar no que o preconceito pode resultar. No último sábado (28/03) ele viu o filho negro de 8 anos ser praticamente expulso por uma vendedora de frente da loja Animale, sob a justificativa de que não poderia vender coisas ali.

“Provavelmente vão dizer que foi um ‘mal-entendido’ (mesmo quando as crianças negras têm o azar dos mal-entendidos sempre acontecerem com elas). No entanto, minha preocupação é quando o ‘mal-entendido’ não é mais com uma vendedora de uma loja, mas com um policial armado”, desabafou em sua página no Facebook.

O temor de Duran ao falar da polícia não é exagero de pai comovido por ver o filho discriminado. Das vítimas de homicídio no Brasil com idades entre 15 e 29 anos, 77% são negras. Quantas delas foram mortas por causa de avaliações precipitadas de policiais ou outros agentes de segurança, que associam a pele escura e outras características físicas à criminalidade?

Poucas é que não foram. A pesquisa “Filtragem racial: a cor da seleção do suspeito”, do professor e oficial da Polícia Militar de Pernambuco Geová da S. Barros, constatou que 65,03% dos profissionais percebem que os pretos e pardos são priorizados nas abordagens.

“Com certeza, existe realmente essa discriminação no ato da abordagem. Numa simples abordagem você vai discriminar, não sei o porquê, mas a preferência da abordagem é, com certeza, a pessoa de cor, o negro”, afirmou um tenente entrevistado na pesquisa.

Em 2013 foi revelado um documento no qual um capitão da Polícia Militar de São Paulo orientou os militares de serviço no bairro Taquaral, região nobre de Campinas, a focar as abordagens “especialmente a indivíduos de cor parda e negra com idade aparentemente de 18 a 25 anos”.

O resultado da pesquisa e a ordem do oficial da PM paulista abrem espaço para especular se Alan de Souza Lima, o adolescente que filmou o momento em que foi fatalmente baleado por policiais em uma favela no Rio de Janeiro, no mês passado, pudesse estar vivo se fosse loirinho.

Na mesma situação poderia estar Claudia Silva Ferreira, morta após ser baleada por policiais e arrastada na viatura, se em vez de negra fosse branca.

Amarildo, desaparecido na Rocinha; Matheus Alves dos Santos, cujo sequestro e morte foram flagrados pela câmera de uma viatura da PM do Rio de Janeiro; e o dançarino DG são nomes conhecidos entre os tantos negros anônimos mortos pela polícia. Não são casos isolados nem “mal-entendidos” e sim vítimas do racismo entranhado nos aparatos de segurança pública.

Jonathan Duran tem todos os motivos para ficar preocupado. Vendedoras racistas, definitivamente, não são as piores ameaças que seu filho poderá enfrentar por ser negro.

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