As “empresas de prateleiras” de Vorcaro para dar imóveis a ex-chefe do BRB como propina

Atualizado em 17 de abril de 2026 às 9:10
Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Foto: reprodução

Os seis imóveis de alto padrão que, segundo a Polícia Federal, foram oferecidos como propina ao ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa estavam ligados a empresas abertas em série, registradas no mesmo endereço em São Paulo e que nasceram com capital social de apenas R$ 500. A suspeita é de que essas pessoas jurídicas tenham sido usadas para esconder a titularidade real dos bens, avaliados em cerca de R$ 146,5 milhões, no esquema investigado na nova fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira.

A investigação apura suspeitas de fraude financeira em negócios entre o BRB e o Banco Master, de Daniel Vorcaro. Na decisão que autorizou a operação, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF) apontou que os imóveis estavam associados a empresas diferentes, mas usadas com a finalidade de ocultar quem seria o verdadeiro dono dos bens.

A estrutura chamou atenção dos investigadores porque todas essas companhias, segundo registros da Junta Comercial de São Paulo consultados pelo Globo, aparecem formalmente em nome de uma única pessoa: o empresário Hamilton Edward Suaki, cunhado do advogado Daniel Lopes Monteiro, apontado pela PF como operador jurídico-financeiro do esquema e também preso na operação.

Para a Polícia Federal, Suaki atuava como uma espécie de operador “fictício” das empresas criadas para viabilizar a aquisição e a ocultação patrimonial dos imóveis. Procurado, ele não se manifestou. Já a defesa de Paulo Henrique Costa afirmou considerar a prisão do ex-dirigente do BRB “absolutamente desnecessária”.

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Foto: reprodução

O advogado de Monteiro não respondeu aos contatos da reportagem. Em nota, o governo do Distrito Federal, acionista do banco, afirmou ter “compromisso com a transparência, o respeito às instituições e a legalidade, e seguirá colaborando com as instâncias competentes”.

Os registros da Receita Federal reforçam a suspeita de uma estrutura padronizada. As empresas foram abertas em um intervalo curto, entre julho e outubro de 2024, compartilham o mesmo endereço na Avenida Brigadeiro Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, e têm o mesmo diretor formal.

Também há coincidências nos dados de contato: parte delas usa os mesmos números de telefone nos cadastros oficiais. Por telefone, a recepção do edifício comercial onde essas companhias estão registradas afirmou que nenhuma delas funciona ou já funcionou no local.

Outro ponto central da investigação é a trajetória financeira dessas empresas. Todas foram constituídas inicialmente com capital social de R$ 500 e, depois, tiveram seus valores ampliados para patamares milionários, compatíveis com a compra de imóveis de luxo.

Para os investigadores, esse movimento é típico de empresas de “prateleira”, estruturas jurídicas já criadas, mas sem atividade real, que podem ser usadas para dar aparência formal a operações suspeitas, reduzir rastros e dificultar a identificação dos beneficiários finais.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.