As exigências impostas a Vorcaro para selar o acordo de delação premiada

Atualizado em 1 de junho de 2026 às 7:48
Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master. Foto: reprodução

As negociações para uma nova tentativa de acordo de delação premiada de Daniel Vorcaro começaram na semana passada em reuniões separadas de seus advogados com integrantes da Procuradoria-Geral da República (PGR) e delegados da Polícia Federal. Segundo envolvidos nas conversas, ainda não houve avanço concreto porque a defesa não sinalizou o que pretende oferecer desta vez.

Uma condição, porém, já foi colocada nas duas frentes de negociação: se quiser fechar um acordo, Vorcaro terá de parar de tentar se defender e assumir crimes. Segundo o Globo, a avaliação de investigadores é que uma nova proposta não poderá repetir a linha adotada no primeiro material, rejeitado no último dia 20.

A documentação inicial foi considerada insuficiente por não relatar fatos que já haviam sido descobertos pelos investigadores e seletiva por tentar proteger pessoas e omitir pontos considerados relevantes. Para fontes ligadas à negociação, essa postura decorreu em boa parte da recusa de Vorcaro em admitir culpa nos fatos que levaram à sua prisão, em novembro passado.

Um dos exemplos citados nas tratativas envolve o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Os anexos apresentados por Vorcaro não mencionavam o pagamento de uma mesada de R$ 500 mil nem despesas de luxo, como viagens e jantares na Europa. O material citava apenas a sociedade na empresa usada como veículo e não abordava a apresentação da chamada “emenda Master”.

A proposta da “emenda Master” previa elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para investidores que compravam CDBs. Pelo tom considerado suave em relação ao senador, o capítulo foi apelidado por investigadores de “a beatificação de Ciro”.

A primeira proposta também não detalhava a influência de Cláudio Castro (PL) nos aportes do Rioprevidência em papéis do Banco Master. Para um integrante da equipe que negocia com a defesa, a mudança de postura é indispensável. “Ele precisa aceitar que uma delação presume confissão de crimes, não é instrumento de defesa”, disse esse investigador.

Daniel Vorcaro e Cláudio Castro. Foto: reprodução

Além de preparar novos anexos, os advogados de Vorcaro têm uma missão paralela: reconstruir pontes com o ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). A relação com o gabinete ficou estremecida depois que a defesa anterior, conduzida por José de Oliveira Lima, decidiu bancar a proposta rejeitada.

Na ocasião, o advogado disse a Mendonça que recorreria à Segunda Turma do STF caso a colaboração não fosse homologada. O gesto foi interpretado como ameaça pelo ministro, que deixou de receber a equipe do banqueiro em seu gabinete e passou a se comunicar apenas por escrito, por meio de petições.

Com a rejeição da proposta, Vorcaro deixou a sala de Estado-Maior da superintendência da PF no Distrito Federal e foi levado a uma cela de passagem que, segundo seus advogados, tinha condições piores do que outras carceragens pelas quais passou desde a prisão em março.

Depois, Mendonça autorizou que o executivo voltasse à sala original, a mesma pela qual passou o ex-presidente Jair Bolsonaro antes de ser transferido para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a Papudinha. A decisão foi vista como um “reset” nas tratativas. Agora, a defesa precisa convencer Vorcaro a abandonar o discurso de vítima e assumir culpa para tentar avançar com o acordo.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.