As farsas do homem mais rico do Chile. Por Moisés Mendes

Andrónico Luksic. Foto: Wikimedia Commons

Publicado originalmente no blog do autor

POR MOISÉS MENDES

Ele é chamado de ‘o croata’ pelos chilenos. Andrónico Luksic, o homem mais rico do país, é um dos personagens da crise política chilena.

Seu nome está quase todos os dias em todos os jornais, porque ele diz uma coisa e faz outra. Mas a novidade nesse episódio é que inverte os papeis clássicos de um bilionário direitista.

Luksic tem uma fortuna de US$ 14 bilhões em indústrias de todas as áreas, bancos, financeiras, fazendas, cervejarias, construção civil, um canal de TV, o canal 13, shoppings. Comanda os grupos Luksic e Quiñenco e emprega 30 mil pessoas no Chile e outras 30 mil em outros países.

Quando as manifestações de rua assustaram a direita, Luksic anunciou que nenhum funcionário dos seus grupos receberá menos de 500 mil pesos a partir de janeiro do ano que vem.

Era a sua parte nas respostas que o governo e o empresariado do Chile deveriam dar ao povo. O salário mínimo chileno havia passado de 300 para 350 pesos, por decisão do presidente Piñera, e ficaria valendo o equivalente a R$ 1.900. O piso de Luksic foi bem além, para algo em torno de R$ 2.700.

Outros empresários aderiram à ideia e anunciaram que também corrigiriam os salários.

Na sexta-feira, Luksic publicou nos jornais um texto com mais um lance espetacular: se o governo e o Congresso decidissem criar, ele apoiaria já um imposto de 1% sobre patrimônios, “que ajude a pagar a dívida com o país”. E acrescentou: “Se queremos soluções de verdade, não podemos continuar fazendo o mesmo”.

Mas, entre um gesto e outro, vazou um áudio em que Luksic faz afirmações em outra direção. É quando subverte a postura do demagogo. É aparentemente progressista no que faz e reaça no que diz.

No áudio, em tom de ameaça e de desabafo, ele defende a repressão e o toque de recolher, ataca a imprensa e chama os manifestantes de vândalos e comunistas de merda que estão incendiando o país. O Luksic que se diz sensibilizado com a revolta revela-se o mesmo de sempre, um sujeito ultraconservador.

O pai dele, o croata Andrónico Luksic Abaroa, fugiu para Londres e mais tarde para Buenos Aires, depois do golpe de Pinochet, em 1973, porque teria ligações com as forças que haviam garantido a eleição de Allende.

Quando a família retornou ao Chile, nos anos 90, o filho virou direitista e multiplicou a fortuna que o pai já havia construído.

A diferença entre Luksic e os empresários brasileiros é que aqui eles não precisam fazer média com ninguém. Aqui está tudo sob controle.

Os empresários brasileiros estão seguros de que nada de mais grave irá acontecer, apesar do crescimento do desemprego, da miséria e do fascismo.

Luksic deveria comprar uma camisa da seleção e expandir seu império em terras brasileiras. É só falar com o véio da Havan.

(O áudio vazado, em que o empresário chama os manifestantes de vândalos, mas não se sabe em que circunstâncias foi gravado, está no link abaixo).

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